Missão Espacial Gaia – 3º data release

por Ramachrisna Teixeira*
 
O consórcio ESA/DPAC publicou no dia de hoje, 3 de dezembro de 2020, a primeira parte do terceiro release de dados da Missão Espacial Gaia. Este release foi disponibilizado para o mundo inteiro e ao mesmo tempo, conforme política adotada desde o início desta missão.
 
 
O terceiro release baseia-se nos 34 primeiros meses de observação, julho/2014-maio/2017. A parte divulgada hoje, referida como EDR3 (“Early Data Release 3”), representa sobretudo um “upgrade” do DR2 (release publicado em abril de 2018), contendo dados observacionais mais exatos, mais precisos, mais homogêneos e para um maior número de objetos.
 
O EDR3 inclui posições e brilhos para mais de 1,8 bilhão de estrelas sendo que para um 1,5 bilhão delas são fornecidos também os movimentos, distâncias e cor. Foram publicadas  também as velocidades radiais para mais de 7 milhões de estrelas, as mesmas do Gaia DR2 com eliminação de algumas velocidades espúrias. Além disso, temos as posições e brilhos para 1,6 milhão de “quasares” que constituem o Gaia Celestial Reference Frame (GCRF3), que materializa o “International Celestial Reference System - ICRS”.
 
As precisões associadas a essas várias grandezas são dependentes de diversos fatores, como a quantidade de observações realizadas, o espaçamento temporal e o brilho. As posições e magnitudes são fornecidas no EDR3 com precisões que vão de 0,01 a 1,5 milissegundo de grau e de 0,3 a 100 mili magnitude. Em geral, as precisões são 2,5 vezes melhores do que aquelas do DR2. Além disso, o EDR3 é muito mais homogêneo, com erros sistemáticos bastante minimizados em relação ao DR2.
 
A segunda parte deste release, conhecida apenas por DR3, será publicada em  2022. Esse conjunto deverá incluir parâmetros astrofísicos e classificações de centenas de milhão de estrelas, velocidades radiais para aproximadamente 30 milhões, classificação de milhões de estrelas variáveis, solução orbital para mais ou menos 100 mil asteróides, estrelas múltiplas, galáxias, “quasares” e galáxias hospedeiras, e um survey fotométrico em um campo de 5,5° de raio centrado na galáxia de Andrômeda.
 
As observações dos astros são essenciais para nossa compreensão do Universo como um todo e na busca de respostas às nossas questões existenciais mais básicas. Estamos vivendo um momento histórico da Astronomia, marcado pelas observações extremamente precisas e abundantes de parâmetros fundamentais realizadas pelo satélite Gaia. Nunca o Homem observou tantos astros, galácticos, extragalácticos e do Sistema Solar com tamanha precisão e abundância, e com um único instrumento. Os dados estão aí, nas mãos de todos e prontos para serem explorados.
 
Sobre a Missão Gaia
 
O satélite Gaia vem “escaneando” continuamente o céu desde julho de 2014 e observando os mais variados corpos celestes até a magnitude V ≅ 21. O alvo mais abundante e principal da Missão Espacial Gaia são as estrelas. Graças aos dados do Gaia, podemos conhecer em detalhes, para um número inimaginável delas, onde estão, como são, onde e quando se formaram, para onde irão e quando concluirão seus ciclos de “vida”.
 
Em abril de 2018, o segundo release de dados (DR2) do Gaia alterou radicalmente a base sobre a qual repousa a Astronomia. Trouxe a confirmação de muitas suspeitas amparadas em dados escassos e menos precisos da era pré-Gaia e em inúmeras simulações. Por outro lado, aos poucos foi nos revelando muitos detalhes e surpresas. Esse segundo catálogo, baseado apenas nos 22 primeiros meses de observações, rapidamente constituiu-se na principal fonte de dados astronômicos utilizada em todo o mundo, sendo referência para 3-4 artigos científicos por dia desde então.
 
Além das estrelas, o satélite Gaia observa também, corpos do Sistema Solar, sobretudo asteroides, possibilitando um conhecimento de suas órbitas sem precedente; galáxias não resolvidas para as quais podemos extrair informações morfológicas; galáxias satélites cujos movimentos nos revelam detalhes da formação da Via Láctea e de suas estrelas; “quasares” materializando um sistema de referência “fixo”, abundante, homogêneo e rígido, como jamais tivemos; curvas de luz de milhões de estrelas variáveis; supernovas para serem acompanhadas a partir do solo; exoplanetas que no final da missão deverão somar aproximadamente 70 mil.
 
A missão Gaia, inicialmente prevista para 60 meses, já foi estendida para 84 meses. Sendo resolvidas pequenas formalidades, deverá ir além, alcançando 120 meses.
 
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* Ramachrisna Teixeira é Professor Associado do Departamento de Astronomia do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas – IAG/USP.
 
Para conhecer mais sobre a Missão Espacial GAIA, acompanhe no dia 07/12 - 16:00 a Aula Aberta com o Prof. Ramachrisna Teixeira, que será transmitida ao vivo no canal do IAG/USP: https://youtu.be/IgUcpOc9pnY
 
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