Andrea Ustra: “Foi pesado, mas eu tive bastante ajuda”

selo decorativoAndrea Teixeira Ustra passou a integrar o corpo docente do IAG após aprovação em concurso público no ano de 2019, e é nossa docente com menos tempo de casa (os concursos para o corpo docente da USP estão suspensos pela Resolução Nº7955 de 05/06/2020). Desde seu primeiro semestre como docente do Departamento de Geofísica, vem atuando como membro titular da Comissão de Graduação do IAG e também se dedica a diversos projetos de extensão universitária. Conversamos na primeira semana de 2021 sobre o começo atípico na carreira docente, sobre as adaptações do home office e sobre o alcance e as limitações das atividades.
 
 
Uma das motivações para eu conversar com você é por você ser a nossa docente mais nova de IAG… 
É engraçado porque eu fiquei seis meses trabalhando [no regime] normal, e um ano na pandemia. Então eu fiquei muito mais tempo nesse regime de pandemia.
 
Você já tinha um contato com o IAG há vários anos, desde o seu mestrado, e como pós-doutoranda sempre foi muito ativa, participando da Escola de Verão de Geofísica e de orientações. Mas eu queria saber como foi a transição para a posição de docente do Departamento.
Eu tive esse benefício de já estar acostumada com o ambiente, eu já sabia os nomes de quase todo mundo, e mesmo os alunos já me conheciam. Isso me ajudou muito. Mas o volume de trabalho mudou completamente, foi uma enxurrada de coisas para fazer, aulas para preparar, em cursos que eu nunca tinha dado. Já no primeiro mês me indicaram para a Comissão de Graduação, e agora fui indicada para a Escola de Verão. Então foi um ano de muito trabalho, como eu esperava.
No IAG, isso eu tenho que destacar, [a secretaria e os setores administrativos] ajudam muito os docentes. Para tudo o que é novo, que eu nunca tinha feito, eu posso pedir ajuda. Então isso foi muito tranquilo, eu tive muita ajuda nessa transição. Também tive muita ajuda dos próprios docentes do Departamento, que me chamaram para dividir disciplinas. Eles sempre se preocupavam se eu estava com a carga muito acima do ideal para que eu também pudesse fazer pesquisa. E eles sempre me lembravam que a cobrança virá pela pesquisa, porque a USP é uma universidade de pesquisa. Lógico que eu preciso dar aulas, porque sou professora, mas também preciso entregar na pesquisa. Eles sempre me alertaram muito para não deixar a pesquisa de lado, mesmo dando aulas e participando de várias comissões, que são coisas que tomam muito tempo. Então foi pesado, mas eu tive bastante ajuda.
 
Uma dessas disciplinas que você divide com outros docentes é a de Introdução à Geofísica, para os ingressantes do Bacharelado. Em 2020, vocês tiveram duas ou três semanas de aula presencial e de repente estavam na aula em vídeo.
Sim, foi super complicado. Pelo menos nós tivemos as duas primeiras semanas, que se seguiram à Semana de Recepção aos ingressantes. Eu estava com eles na visita ao Parque Cientec, na conversa com os pais, em toda a recepção. Então acho que isso nos aproximou um pouco. Mas foi  muito difícil sim, alguns alunos trancaram, porque não tiveram condições. De repente você precisa de um computador para estudar em casa. No primeiro ano, quase não se usava o computador, costumava ser mais o caderno, os livros, a biblioteca, por serem as disciplinas mais básicas. E quando o aluno precisava de computador, ele encontrava tudo no IAG, que tem uma estrutura muito boa. Em 2020 tivemos essa limitação, e para alguns alunos não foi mesmo possível acompanhar o curso. 
 
Quais estratégias vocês utilizaram para manter o contato com os estudantes no ensino a distância?
Nessa disciplina de Introdução [à Geofísica], nós procuramos sempre estar presentes e conversar com os estudantes. O Eder [Molina], o Renato [Prado] e eu sempre estávamos na sala virtual, mesmo quem não fosse dar o conteúdo da aula. Nós conversávamos sobre outros assuntos, queríamos saber como eles estavam nas outras disciplinas, pedíamos todo tipo de feedback. Acho que isso ajudou. E sempre tentando deixar o ambiente mais informal, para que eles se sentissem mais à vontade.
Depois eu dei mais duas disciplinas para alunos dos últimos anos. Eram turma pequenas, e com alunos que eu já conhecia. Foram aulas muito boas, muito produtivas. Como os alunos já estavam no final do curso, eles tinham um notebook, um computador em casa, e já conheciam os programas que precisavam instalar.
Este semestre ainda não acabou para mim. Estou dando uma disciplina que é obrigatória para os alunos [do Instituto de] Química. Eu me adaptei ao semestre deles, que começou em setembro, e vamos até o final de janeiro. São quase 60 alunos, então eu me deparei com um monte de gente no Google Meet, com as câmeras desligadas. No começo eu falava e não sabia se eles me ouviam, se estava tudo certo. Comecei a ficar bem preocupada em como ter uma aula produtiva, que não fosse apenas eu falando. Eu não queria dar uma prova convencional, porque não sei o quão funcional ela seria. Eu procurei um outro caminho, e está sendo super legal. Dividimos os grupos, e eu passei artigos para eles. Cada artigo tem três ou quatro grupos trabalhando, para ler e fazer uma mesa redonda. Serão ao todo seis mesas redondas, que são dias em que os grupos fazem a discussão dos artigos. Por mais que eu não veja ninguém, eles falam e eu tenho um feedback. Essa foi uma estratégia que deu certo para eu conseguir me comunicar com uma turma grande, em que eu não conhecia os alunos.
 
Essas disciplinas do segundo semestre teriam parte prática, em laboratório?
O curso de TG I (Trabalho de Graduação), junto com a Yara [Marangoni], era mais de escrita, precisava sim acessar alguns programas para fazer gráficos, mas não houve muita dificuldade. Mas no outro curso, tínhamos vários programas que queríamos usar, como o MatLab, e começou a ficar complicado. É um programa pago, e mesmo a versão gratuita pode ser muito pesada e atrapalhar o computador dos alunos. Eu não posso esperar que o aluno tenha [esses recursos] em casa. É uma estrutura que nós sempre tivemos no IAG.
Então o [Carlos] Mendonça e eu, que dividíamos a disciplina, nos organizamos para que nesses dias de aula com MatLab um de nós estivesse no IAG. Um de nós abria a sala F107 (laboratório didático de Informática do Departamento de Geofísica), onde a aula presencial teria acontecido, ligava os computadores e os alunos faziam o acesso remoto e usavam o computador com o programa instalado. Tinha essa limitação de que um de nós precisava ir ao IAG para ligar e desligar os computadores, mas o acesso remoto deu super certo e os alunos preferiram assim. Mas foi uma turma pequena, que começou com 10 inscritos e terminou com 4 alunos – era uma disciplina optativa, então não sei dizer se trancaram por causa disso, ou se descobriram que não era o que interessava para eles.
 
Além dessas disciplinas você também começou em 2020 a orientar no Programa de Pós-Graduação em Geofísica. Como está sendo trabalhar a distância com seu primeiro orientando de Doutorado?
Isso está sendo bem tranquilo por enquanto, porque o Pedro está em uma fase de ler e estudar muito. As amostras que ele vai analisar ainda não estavam disponíveis em 2020. Então eu falei para ele aproveitar o ano para cursar as disciplinas. Agora neste semestre ele vai ter que ir para o laboratório, então vamos ver como está o acesso à USP para ele. Como não tem viagem de campo e as medidas que ele vai fazer exigem apenas que ele esteja no laboratório, não deve ter problemas. Se tivesse campo, viagem, aí realmente seria complicado.
 
E a sua pesquisa neste ano, foi possível dar continuidade?
[A pandemia] afetou bastante. Na parte que está em laboratório, com os alunos, está tranquilo. Estamos conseguindo acessar o laboratório USPMag seguindo diversos protocolos sanitários aprovados pela Diretoria, por isso acredito que vai dar tudo certo. Aliás, nós aproveitamos que o laboratório USPMag não recebeu visitantes nesse período e nos organizamos para transformá-lo em uma Central Multiusuário, que já está em funcionamento – a primeira do IAG!
Já a parte de campo foi bastante afetada. Eu tenho uma aluna de Iniciação Científica que conseguiu fazer um campo em São Paulo, que foi autorizado quando fomos para a fase verde. Por sorte era um campo em São Paulo, não tinha viagem, e foi mais fácil para organizar.
Mas o Vagner [Elis], o Mendonça e eu temos um projeto no Nordeste, para fazer Geofísica para estudar a contaminação por óleo nas praias, daquele derrame de 2019. Nós conseguimos um projeto FAPESP para estudar isso, em colaboração com a Universidade Federal do Ceará (UFC) e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas(IPT), que foi aprovado em outubro ou novembro de 2020, e agora estamos em standby. A nossa proposta era ir até lá a cada dois meses. Ainda não sofremos um grande impacto, mas não sei ainda como vamos fazer se continuar assim. Vamos ter que sentar todos juntos e tomar uma decisão sobre o que fazer. É um problema do óleo que nós queremos ver como está sendo a degradação, se ele continua lá. O pessoal da UFC vai estudar qual foi o efeito nos ecossistemas. Estamos perdendo um tempo precioso, e eu queria muito começar neste semestre.
 
Esse campo poderia ser feito pelos colaboradores no Ceará, para depois vocês fazerem as análises?
Para essa parte de Geofísica, precisamos ir até lá com o equipamento. Pensamos em deixar o equipamento lá, porque é um pessoal muito disposto e que talvez possa dar continuidade. Mesmo assim, primeiro precisamos fazer esse primeiro campo para determinarmos os parâmetros, e oferecer um treinamento.
 
Você também estava envolvida em várias atividades de extensão universitária neste ano, como o Astrominas e o Cecíia, que foram adaptadas para o formato online.
Sobre esses projetos eu preciso falar que a Profa. Elysandra [Cypriano], que já tinha muita experiência em Ensino a Distância, fez a transição de uma forma que foi muito suave para mim. Eu entrei e fui acompanhando, propondo temas e atividades, e preparando alunos e material. A experiência da Lys e da Marcia [Yamasoe] e me ajudou muito. Acompanhei o Astrominas, gravei um vídeo, participei. E o Cecilia é um projeto muito protagonizado pelos alunos de graduação. Nós estamos sempre ao lado deles, ajudando, orientando, vendo se eles precisam de alguma coisa. O Prof. Marcelo Bianchi também contribuiu com vídeos, textos e atividades. O resultado ficou muito legal e os alunos gostaram bastante! Então são muitas coisas, mas que vão andando sozinhas. A preparação do material tomou algumas semanas, mas o mais difícil é organizar o tempo.
 
E como foi ver os projetos acontecendo, e dando resultados?
Foi muito legal. Foi impressionante quando o Astrominas abriu [as inscrições] online, porque o alcance foi muito maior. A [Elysandra] decidiu abrir para o país todo, e tivemos inscrições do Brasil inteiro. E o Cecília também foi aberto para o país inteiro. Então vimos a demanda que existe no país todo, vimos como os alunos estão motivados, e vimos como isso é importante, especialmente neste período de pandemia e nessa faixa etária. Porque a adolescência é uma fase muito difícil para os estudantes. Eles estão tentando encontrar coisas de que gostem, e têm muitas aulas. É muito difícil para eles manterem o foco. Então é muito gratificante para nós quando estamos inspirando e motivando esses alunos. Eu não tenho a pretensão de fazer alguém virar geofísico, mas já é um ganho ter prendido a atenção, ter dado mais interesse para estudar, mais interesse na ciência. Acho que o Cecília é um projeto que tem o potencial de fazer a diferença para essas escolas.
Fico muito feliz de estar participando com a [Elysandra], que rege tudo isso muito bem.
 
Atividade prática do curso de Geofísica Ambiental ministrado pela Profa. Andrea Ustra
A Profa. Andrea Ustra conduzindo atividade prática durante a Escola de Verão de Geofísica (2019)
 
E agora em 2021 você está na coordenação da 23ª Escola de Verão de Geofísica. É uma atividade muito tradicional para o Departamento, e neste ano será no formato online. Como vocês fizeram essa adaptação?
Nós ficamos um pouco com medo de como seria, se iria dar certo, mas não podíamos deixar de oferecer a Escola de Verão. E pensando bem, na verdade temos chances de alcançar mais inscrições. Todos os cursos ficaram gratuitos, e isso ajuda muito mais. É legal ver o pessoal se interessando pelo que estamos fazendo. Como é a primeira vez [que estou na coordenação], eu não sei como foi a procura, o número de inscritos nos outros anos. Mas em 2021 tivemos cerca de 400 inscritos para um dos cursos, o que é muito legal. Tinha vários detalhes na coordenação que não me eram familiares, mas estou aprendendo com a Profa. Marcia [Ernesto], com vocês. Estou aprendendo, acho que está dando certo. 
 
Você acredita que as adaptações que foram feitas ao longo de 2020 nas aulas, na organização dos laboratórios e nas atividades de extensão serão mantidas depois do fim da pandemia?
Acho que tem algumas coisas que podem e devem continuar. Por exemplo, o formato do Cecília e do Astrominas pode talvez combinar com uma versão presencial. Não podemos deixar para trás o alcance que tivemos no formato online. E temos essa responsabilidade, agora que vimos que existe essa demanda e que podemos atender. Claro que há muitas coisas que são legais de se fazer presencialmente, então espero que se possa encontrar um equilíbrio quando começarmos a voltar para o presencial.
A Escola de Verão também pode continuar tendo um ou outro curso online. O meu curso de Geofísica Ambiental, por exemplo, é realmente muito prático, e não teria a menor graça se fosse online. No primeiro ano em que eu ofereci o curso, eu tinha planejado apenas uma prática, mas depois eu fui percebendo que é quando o pessoal aproveita muito mais, porque é um assunto muito prático. Por isso esse curso não foi oferecido online. Mas alguns cursos valem sim a pena. Temos que aproveitar esse know-how que ganhamos em 2020.
 
Para terminar, vimos em 2020 vários levantamentos sobre os efeitos da pandemia especialmente para mulheres, para mulheres cientistas que estão em casa com os filhos. Como foi para você conciliar as suas atividades profissionais e pessoais?
A parte da aula das crianças foi realmente exaustiva. Eu não tenho que acompanhar todas as atividades, mas tenho que dar conta de uma agenda, de entrar nas aulas. Nós não paramos, foi exaustivo mesmo. E está sendo um grande desafio para mim porque a minha filha mais nova começou a alfabetização em 2020. É uma fase muito importante, e está sendo muito difícil para ela. Então eu fico bem alerta. Eu tenho o meu trabalho, mas também estou atenta a isso.
Nós não estávamos preparados [para o ensino a distância]. Por sorte meu filho tinha acabado de ganhar um tablet, então ele fez as aulas no tablet. A minha filha não tinha nenhuma plataforma, computador, celular, porque ela tinha 5 anos. Agora ela já sabe tudo – entrar na sala de aula, compartilhar. Ela faz as aulas no meu computador, e eu trabalho em um notebook do Departamento de Geofísica.
Foi muito difícil eu me concentrar para escrever um artigo, por exemplo. Eu tinha muitos planos, muitas coisas que eu queria escrever, projetos que eu queria enviar, mas não conseguia parar e me concentrar. Então eu acabei fazendo coisas que me tomavam um certo tempo, mas que terminavam. Eu fazia uma pesquisa para uma aula, para um vídeo, e no dia seguinte eu conseguia retomar facilmente. Mas escrever um projeto de pesquisa ou um artigo exige mais concentração.
No final das contas, eu resolvi que iria submeter um artigo neste ano de pandemia, e consegui realizar esta meta. Agora vou tentar enviar um projeto neste ano. E é isso que vou escrever no meu relatório para a CERT [Comissão Especial de Regimes de Trabalho, comissão da USP que analisa os relatórios de atividades docentes]. Já tivemos uma conversa, uma reunião com a CERT, e principalmente as mulheres contaram sobre como a pandemia afetou a vida delas. Estamos em um período probatório, mas está muito difícil pesquisar, está muito difícil encontrar essa concentração. Então eu quero escrever isso no meu relatório, como isso me afetou. Em termos quantitativos, eu não fui o que imaginava. Mas eu enviei um artigo que eu achei bom, e isso importa. E se a minha filha terminar a pandemia alfabetizada, será outra conquista.
 
 

 

Esta entrevista faz parte de uma série de conversas com membros da comunidade IAG para refletir sobre o ano de 2020 e os efeitos da pandemia em nossas atividades. Alguns trechos foram editados, para maior clareza. Leia todas as entrevistas no nosso especial no site do IAG.
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