Daniele Brandt: “Eu senti essa transformação de virar Doutora”

selo decorativoDaniele Brandt é especialista do Laboratório de Paleomagnetismo e Magnetismo de Rochas do IAG desde 2005. Em 2020, defendeu seu doutorado no Programa de Pós-Graduação em Geofísica e também se destacou como uma das vencedoras do prêmio da Geophysical Journal International – '2020 Student Author Award'. Nossa conversa aconteceu somente em fevereiro, depois do encerramento desta edição da Escola de Verão de Geofísica – na qual ela participou da organização e ofereceu um curso online. Falamos sobre adaptações, desafios e conquistas, e sobre a importância de poder dividir tudo isso.
 
Como você está, agora em fevereiro de 2021?
Estou bem. Eu tirei férias em janeiro. Como eu estava trabalhando de casa, ficou meio estranho estar de férias e olhar o computador ali. Eu viajei por uma semana e isso ajudou a me desconectar. Eu estava bem cansada no final de 2020.
Agora eu voltei com a Escola de Verão, que fizemos a distância e foi uma experiência incrível.
 
Em 2020 você defendeu o seu doutorado em Geofísica. Como foram os últimos ajustes para preparar a defesa logo no início do isolamento?
Eu tinha depositado a minha tese no final de janeiro. Depois do depósito, tem um intervalo de tempo até organizar a banca, e aí veio a pandemia. Eu dependia não só da minha agenda, mas também da agenda dos membros da banca, e estávamos todos com essa grande novidade do trabalho remoto. Uma coisa que foi boa para mim é que eu precisava correr atrás e preparar a minha defesa, independentemente das dificuldades que aparecessem, porque havia um prazo. Então eu me preparei para a defesa. 
No começo eu achava que a defesa seria ao vivo, e que tudo voltaria ao normal depois de 15 dias, ou um mês – mas não foi isso que aconteceu. Quando estava chegando próximo ao prazo, que era na metade de maio, a Profa. Marcia [Ernesto] sugeriu pedir a prorrogação da defesa, para garantir. Nós chegamos a pedir essa prorrogação, mas usamos talvez poucos dias.
A defesa em si foi uma experiência muito boa para mim. Foi mais fácil porque eu apresentei sem ter um público. A família na plateia me deixa mais nervosa, eles viram pelo YouTube. A transmissão online e apresentação em inglês permitiu que pessoas de fora assistissem, como algumas pessoas do grupo da Califórnia, onde eu fiquei por oito meses. Isso nunca poderia ter acontecido em uma defesa [presencial] no Brasil.
 
A Profa. Yara Marangoni comentou que os alunos defendendo virtualmente não puderam ter a comemoração no IAG, como era tradicional. Mas eu lembro da sua defesa porque, durante a deliberação da banca, você começou a ver as pessoas que estava no chat da transmissão e ler as mensagens delas. Para você então foi positivo ter a defesa online, por ter atingido colaboradores que não são de São Paulo?
Sim, porque [isso aconteceu] não só na banca, mas também na plateia. Foi muito bom. Mas, claro que no IAG eu teria tido aquele ritual que é sensacional: a pessoa termina de apresentar, sai para o corredor e vem aquele monte de gente cumprimentar, como se já tivesse saído o resultado. Todo mundo já começa a rir, comemorar, perguntar dos planos do futuro. Eu senti falta, é claro. Mas estamos tão fechados que é até difícil imaginar uma situação dessas de novo. Eu sei que vai acontecer, mas é difícil falar “ah, eu queria abraçar todo mundo”, porque isso não vai acontecer agora.
Mesmo assim, quando saiu o resultado, foi muito emocionante. Foi a finalização de uma fase da minha vida que eu gostei muito de trilhar. O Doutorado não foi um sofrimento, eu não queria que acabasse. E quando veio a defesa, foi sensacional, porque eu vi o resultado. Eu senti essa transformação de virar Doutora.
 
Você conseguiu comemorar depois da defesa?
Eu comemorei aqui em casa, presencialmente eu, minha mãe, o Plínio [Jaqueto] e o meu filho. Nós comemoramos, comemos uma pizza, mas não dava para fazer uma festa. E online, com os amigos do Lab [Laboratório de Paleomagnetismo do IAG]. Ficamos até de madrugada brindando. Foi bem legal, mas não se compara a estarmos fisicamente juntos.
Eu havia feito um festão na minha quali[ficação! Misturou família, amigos, e pessoal do departamento. Parece que eu estava adivinhando que não teria a festa da defesa.
 
Além do título de Doutora, você também comemorou o prêmio de melhor artigo de estudantes no Geophysical Journal International (GJI) por um trabalho que você publicou. 
Eu defendi a tese no dia 20 de maio de 2020. O aceite final deste artigo foi no dia 21. Eu acordei Doutora, e vi que foi aceito o artigo. No final do ano soube do prêmio, que eu não esperava.
Este artigo, independente do prêmio, é muito especial para mim. Ele é referente ao estágio que eu fiz na Califórnia com a Profa. Catherine Constable. E foi o resultado da minha mudança de área de pesquisa, fui para modelagem do campo paleomagnético por conta de questões que foram surgindo ao longo do meu Doutorado. O processo foi muito gostoso, porque pude usar a minha criatividade para responder às minhas perguntas. O curso de Python com os professores Marcelo Bianchi e Victor Sacek, na Escola de Verão, me ajudou a dar o pontapé inicial nessa área.
Quando eu submeti [o artigo], eu só queria saber se estava no caminho certo. Eu sabia que poderia receber uma rejeição. Mas a resposta foi muito boa. Eu tive algumas correções para fazer, que eu também fiz nesse ambiente de quarentena, antes da defesa.
E lá pelo final do ano eu recebi a notícia. O prêmio foi dividido com outro pesquisador [Kenny Graham], de uma universidade da Nova Zelândia. Eu nunca tinha ganhado um prêmio assim, quando comecei a receber os parabéns, percebi que era importante. Além do certificado recebi um prêmio em dinheiro, o que foi bem legal. O trabalho já era especial, e o prêmio, que eu não esperava, foi, sem dúvidas, um bom reconhecimento.
 
Você está com pesquisas em andamento durante a pandemia?
O terceiro artigo da minha tese está praticamente finalizado, estamos fazendo a segunda rodada entre as co-autoras, que são as minhas orientadoras Marcia Ernesto e Catherine Constable. Estou trabalhando em colaboração em artigos de outros colegas, fiz revisões de artigos e apresentei palestras on-line.
Estou co-orientando um aluno de Doutorado do Observatório Nacional, o Hugo Rafael Gomes Silva, que é orientado do Prof. Daniel Franco. E também faço parte da direção da Associação Latino-Americana de Paleomagnetismo e Geomagnetismo. Nós normalmente temos uma reunião que é bienal do LatinMag, e agora, na pandemia, estamos organizando um ciclo de palestras online para manter o vínculo da nossa comunidade.
 
O Prof. Ricardo de Camargo, da Comissão de Pós-Graduação do IAG, estava preocupado em manter essa produção científica que acontece depois das defesas. A preocupação dele era que, sem o contato com o orientador, talvez o aluno não preparasse aquele artigo do final da pesquisa. Mas, no seu caso, me parece que você realmente não parou depois que terminou o Doutorado.
Concordo que, no fim do doutorado, é natural que o estudante tenha coisas para falar, publicar, então a produtividade que é percebida pelos outros é relativamente alta. Depois sei que virá uma baixa pra mim, com a dedicação a novos projetos que se iniciam do zero. Acredito que cada estudante que se forma tem suas prioridades e dificuldades, mas o contato com o orientador não precisa ser presencial para escrever artigo. De qualquer forma, o meu caso é diferente, sou contratada como  física no IAG desde 2005, e tenho a pesquisa como umas das minhas atividades no instituto, por isso não paro. Por outro lado, o fato de ser funcionária e ter muitas outras atribuições, faz com que minha pesquisa sempre ande mais lentamente. Por isso, entrei no doutorado só em 2015, nove anos depois do mestrado. Sabendo desse meu ritmo (mais lento), me preparei fazendo disciplinas, trabalhos de campo e a maioria das análises de laboratório  antecipadamente para que conseguisse cumprir com o prazo da pós-graduação no doutorado. Agora que me formei doutora, tenho mais condições de realizar a minha pesquisa de forma mais independente e, por isso, espero ser capaz de produzir mais do que antes. 
 
E tem ainda o Laboratório de Paleomagnetismo. Como foi o seu trabalho no USPMag durante a pandemia?
Nós mantivemos reuniões semanais, como já fazíamos antes, só que agora no formato online. Quando eu morei fora, eu também participava das reuniões do laboratório – naquela época eu já trabalhava remotamente, mas era mais fácil porque o Giovanni estava fisicamente no laboratório. 
Durante a pandemia, aproveitamos para transformar o laboratório em uma Central Multiusuários, e agora já estamos trabalhando como uma.
Ao longo desses meses tenho preparado treinamentos online e deixando esse material disponível no meu site, organizei os manuais dos equipamentos para deixar disponível on-line, e agora estou trabalhando em conjunto com o pessoal do SESMT para melhorar a comunicação dos protocolos de segurança aos usuários.
A parte administrativa, como compras e importação, não mudou porque já era feita por email ou telefone. O que não dá certo [remotamente] é a manutenção de equipamentos e o recebimento de material. 
 
Eu conversei com o Prof. Ricardo Trindade, e ele contou sobre o planejamento de protocolos que vocês fizeram para a reabertura. Como vem sendo essa adaptação?
O treinamento e o acompanhamento dos usuários está funcionando remotamente, com horários e número de usuários reduzidos. Uma coisa que foi boa é que agora nós temos ferramentas para fazer o que antes fazíamos mal. O nosso laboratório sempre funcionou 24 horas por dia, a semana inteira. Então, muitas vezes, fazíamos esse suporte ao usuário à distância, mas sem estrutura, e agora nós organizamos [essa estrutura]. 
Nós pedimos câmeras, que foram compradas pelo Instituto, para nos comunicarmos com os usuários. No nosso grupo, o estudante de Pós-Graduação ou de Graduação não é simplesmente um usuário do laboratório, ele faz parte do grupo de Paleomagnetismo e colabora no funcionamento do laboratório. Então, a reunião semanal é com todo o grupo, todos são ouvidos e tomam decisões. Os mais experientes podem tranquilamente dar treinamentos para os mais novos e essa colaboração funciona muito bem. 
 
Vocês estão conseguindo atender usuários externos nesses termos?
Sim, nós estamos recebendo alguns usuários externos. Durante o ano de 2019 tivemos um total de 72 pesquisadores visitantes, contra apenas 25 em 2020, sendo que 18 visitantes são de antes do período da quarentena (janeiro e fevereiro). 
 
A Dra. Daniele Brandt atuando no Laboratório de Paleomagnetismo e Magnetismo de Rochas do IAG
A Dra. Daniele Brandt atuando no Laboratório de Paleomagnetismo e Magnetismo de Rochas do IAG 
 
Você precisou ir muitas vezes ao IAG? Foi feita uma escala no Laboratório?
Eu fui poucas vezes, e o Giovanni também. Nós vamos ao laboratório principalmente para manutenção de equipamentos. Montamos um Trello [sistema de produtividade] com as atividades que precisam ser feitas no laboratório. O grupo interno conhece bem o Laboratório, e quando eles precisam, entram em contato. Eu também fui durante o curso da Escola de Verão e para as palestras, pela estabilidade da rede elétrica e internet do instituto.
 
Vocês precisam acompanhar os usuários pelas câmeras?
Temos usuários que são inexperientes e nunca utilizaram determinado equipamento, nesses casos eu fico acompanhando pelo google meet por uns dois dias. No primeiro dia, tem o treinamento e a pessoa mal tem tempo para fazer as análises. No segundo dia eu acompanho e vejo como estão os dados.  Para os mais experientes a troca de informação ocorre por e-mail ou WhatsApp. Esse acompanhamento também é feito por alunos internos mais experientes, que têm essa responsabilidade com o colega.
 
Todos esses trabalhos são com amostras que vocês já tinham?
Acredito que ninguém do nosso grupo tenha feito trabalho de campo nesse período.
 
Saindo um pouco do laboratório, você participou da comissão organizadora da Escola de Verão neste ano, que foi feita pela primeira vez em formato online. Como foi essa experiência?
Foi muito bom. A Profa. Marcia me convidou para ajudá-la, junto com a Profa. Andrea [Ustra], e foi um grande aprendizado. Foi uma honra, por ser um evento tão tradicional do IAG – foi a 23ª edição. 
Quando começamos a organizar, em setembro, eu ainda tinha esperança de que a Escola não seria remota. Eu estava saturada do ambiente virtual, e fiquei pensando que ninguém iria querer se inscrever em um curso online. Mas as pessoas quiseram participar – os ministrantes, como o Filipe [Temporim], a Natasha [Stanton], o Alessandro [Batezelli], quiseram oferecer os cursos. Foram muitas inscrições, por isso tivemos que aumentar o número de vagas. Tivemos um treinamento com o pessoal do Serviço de Multimeios, com o Richard [Lingner], que nos ajudou bastante e o apoio no site e divulgação da escola.
Eu ministrei o curso de Paleomagnetismo para Principiantes com o Plínio [Jaqueto], e com a ajuda da Julia [Massucato] como monitora. 
Não gravar as aulas parece ter deixado os alunos mais à vontade para participar. A experiência foi bem diferente do curso presencial, quando praticamente não tinha perguntas – no online, teve uma enxurrada. 
Esse foi o primeiro curso online que você ministrou? Você acha que vale a pena manter esse formato online?
Sim, foi o primeiro. E eu gostei muito do remoto. No começo eu não sabia se as pessoas iriam aprender e se eles continuariam até o último dia de aula. Infelizmente, algumas pessoas desistiram ao longo da semana, cerca de 20%,, mas foi sensacional ver o quanto [muitos alunos] aderiram às aulas. Nós aplicamos provinhas para fixação de conteúdo no final de quatro dos cinco dias de aula, e deu para ver que o pessoal captou a mensagem do curso. 
Eu continuaria com cursos online desse tipo: para principiantes. Este curso foi mais teórico,  tinha um pouco de cálculo e geometria, mas nada que exigisse um programa instalado na máquina.
Terminamos o curso com 71 alunos na sala, eles ficaram pedindo o curso avançado, mas não sei se esse daria certo remotamente. 
Muitas pessoas agradeceram pela realização deste curso online, por poderem participar de longe. E, depois do curso, eu fiquei pensando em como foi mais fácil para eles: eles não precisaram viajar, pegar ônibus, nem reservar hotel em São Paulo, como ocorre com frequência nas nossas escolas presenciais.
 
Você tem um filho pequeno em casa, e continuou muito produtiva durante todo o ano. Como você fez para conciliar as atividades nesse desafio?
Antes da pandemia, o meu filho ia para a escola de manhã e ficava com a minha mãe durante a tarde toda. Minha mãe sempre me ajudou muito, desde que ele era bebê. 
Além disso, trabalhar no IAG é um conforto para nós. É silencioso, tem o ar puro do campus, a internet é super rápida, os livros estão ali na biblioteca a qualquer momento, eu não preciso me preocupar com a limpeza e a  lanchonete é maravilhosa, eu morro de saudades dos pratos de comida saudáveis da Luciana da lanchonete. Nós temos tudo isso no IAG, e quando eu estou trabalhando em casa eu não tenho nada disso (risos). Então é mais difícil.
Nas primeiras semanas não foi nada produtivo: eu não sabia se cozinhava ou se ajudava no EaD do meu filho. Mas depois eu organizei o meu tempo porque eu não tinha saída. Eu não podia parar: eu tinha o prazo da defesa e o prazo de revisão do paper.
Só depois de umas duas ou três semanas, eu entendi como funcionava a escola do meu filho e passei a separar algumas horas no dia em que eu focava em ser a “professora” dele, mesmo sem saber ser professora. Acho que ter meu filho me ajudou a seguir uma rotina [durante a pandemia]. Ter os horários de aulas dele, e a hora em que eu tinha que estudar com ele me ajudou, me trouxe organização. E na hora em que eu podia trabalhar, eu focava. Quando eu coloco um limite de horas, eu me sinto mais produtiva. Se eu deixo tudo muito solto, termina o dia eu não consigo ver o que eu fiz, parece que eu não produzi.
Com relação à minha produtividade, eu não sei dizer se foi alta. Terminei o Doutorado, tive a defesa, tive os artigos que eu comentei, o trabalho do laboratório… mas eu não fiz nada sozinha. Sempre tive muito apoio no grupo para a realização das atividades do laboratório. E na realização de pesquisa, tive a ajuda dos co-autores. Além disso, o fim do doutorado é uma fase em que escrevemos mais, não dependemos de laboratório, e as publicações normalmente aumentam. Também existe o fato de que eu me preparei para falar com você sobre as coisas que eu fiz na pandemia [nesta entrevista], e fiz  uma listinha, por isso pode ter parecido que foi muita coisa. 
 
 
 

 

Esta entrevista faz parte de uma série de conversas com membros da comunidade IAG para refletir sobre o ano de 2020 e os efeitos da pandemia em nossas atividades. Alguns trechos foram editados, para maior clareza. Leia todas as entrevistas no nosso especial no site do IAG.
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