Elysandra Figueredo Cypriano: “Eu finalmente tive o aval da Universidade para fazer no meu curso o que eu sempre quis ter feito”

selo decorativoElysandra Figueredo Cypriano é docente do Departamento de Astronomia do IAG/USP. Atuante no Programa de Mestrado Profissional em Ensino de Astronomia – do qual ela assume a coordenação agora em 2021 –, a professora Elysandra era uma das docentes com mais experiência em Ensino a Distância quando a pandemia começou. Depois de adaptar suas disciplinas, ela também passou a adaptar seus projetos de extensão, especialmente o Cecília e o Astrominas. A partir de setembro de 2020, com a morte do Prof. João Steiner, assumiu a coordenação do curso EaD “Astronomia para Docentes do Ensino Médio”. Conversamos só no final de janeiro de 2021 – quando a professora já havia coordenado uma edição especial do projeto Cecília dentro do Encontro USP Escola Virtual.
 
 
Eu sei que você teve uma perda muito grande no final do ano, depois de já ter passado tanto tempo em isolamento. Eu queria saber como você está agora.
Então. Defina bem o “como está” (risos). Eu estou bem, seguindo em frente. Às vezes me dá uma tristeza, às vezes me dá revolta ver as pessoas na rua, a falta de compreensão das pessoas sobre a gravidade desta situação. Eu entendo que muitas pessoas estão na rua por falta de opção, porque precisam trabalhar. Se você precisa sair, não tem problema sair com segurança, usando a máscara e os EPIs de forma adequada. Eu mesma precisei sair no meio da pandemia, porque não poderia deixar a minha mãe sozinha no hospital, então eu coloquei os EPIs e fui. Mas às vezes é um pouco revoltante ver as pessoas na praia, em restaurantes lotados. Parece que falta um pouco de senso do todo nesta situação crítica, em que os mais prejudicados são as pessoas mais frágeis – aquelas que não têm acesso a médicos bons, ou que já são mais debilitadas por outros problemas de saúde. É muito fácil você, saudável e forte, pensar que pode ir para a balada. Mas isso afeta outras pessoas, que não necessariamente são da sua família, mas com quem você tem contato. Isso me causa revolta.
Tive também momentos de tristeza, por conta de ter perdido a minha mãe. Por mais que ela já viesse de um câncer. Ela já estava sofrendo, ela precisava fazer hemodiálise, e [foi contaminada] no hospital. A covid-19 acelerou o processo e levou a minha mãe mais rápido. Foi um certo alívio, por ela ter sofrido menos. A perspectiva de sofrimento dela era muito grande, ela já estava sofrendo muito. Mas foi triste perdê-la. Nós sempre lutamos para não perder as pessoas de quem gostamos. E agora estou lidando com coisas como a venda do apartamento onde ela morava, me desfazer das coisas dela – e ainda não estou preparada para isso.
Eu ainda estou no processo de luto, então não estou “bem”. Mas tenho plena consciência de que minha vida precisa seguir adiante. Tenho a minha filha para criar, tenho vários projetos de alunos que dependem da minha força de trabalho, e não posso deixá-los na mão. Tenho os professores, os cursos que oferecemos e que estão “bombando”. Tenho esse compromisso social e profissional de fazer o melhor possível. É claro que fazer o melhor possível exige dedicação, exige horas de trabalho concentrado. Parece fácil ver um curso fazendo sucesso, mas as pessoas não veem o trabalho de fazer a costura, o alinhamento das aulas para que [o curso] faça sentido. É um trabalho mental bastante difícil. Eu tenho esse compromisso de entregar cursos de formação de professores. Eu tenho um compromisso com as “Astrominas”, não só as monitoras, mas também as meninas que estão ansiosas [pela próxima edição]. Tenho alunos que precisam de bolsas para a permanência, que dependem de que eu faça os pedidos e editais, que eu peça fomentos e esteja atenta.
Eu não tenho tempo para ficar muito triste, então a ideia é seguir em frente, um dia após o outro. É essa loucura da vida: você não tem tempo nem de ficar triste. Eu não sou insubstituível, mas na posição em que estou, de professora, de orientadora, de coordenadora de projetos, de coordenadora do Programa de Mestrado Profissional em Ensino de Astronomia – existem coisas que dependem de mim. E eu quero melhorar a avaliação do programa, quero muitas coisas. E se eu quero muitas coisas, eu preciso trabalhar, e não posso ficar chorando pelos cantos.
Mas em algum momento vou parar e deixar as coisas amadurecerem e sedimentarem. Ou não (risos).
 
Quando eu conversei com a Profa. Andrea Ustra, ela mencionou que a participação no Astrominas e no Cecília foi facilitada por você já ter essa experiência para organizar os projetos. Acredito que você era uma das docentes do IAG com mais conhecimento e mais experiência no Ensino a Distância (EaD). Queria saber como foi a adaptação das suas aulas, quando a pandemia começou, e se você foi muito procurada pelos seus colegas.
Sim, bastante (risos). Eu vou ser honesta com você: eu adoro o sistema híbrido de ensino. Acredito que o hibridismo na Educação pode trazer uma grande revolução para obter o ensino de melhor qualidade. Eu já tenho alunos defendendo dissertações na área de EaD, de ensino híbrido, de MOOCs [sigla para Curso Online Aberto e Massivo, em inglês]. Eu tenho uma formação nessa área de EaD, eu fiz meu pós-doc na The Open University, que é uma universidade que só tem alunos de graduação EaD. Então eu já tenho essa bagagem cultural e de vivência do EaD, e por isso eu consegui fazer a transposição dos meus cursos com alegria e disposição. Eu fiquei até feliz porque pude fazer coisas que eu já gostaria de ter feito antes, mas não podia porque nossa cultura na universidade sempre foi muito engessada nessa questão do presencial. E algumas coisas não precisavam ser presenciais – podíamos reservar os momentos presenciais para coisas mais importantes e reflexivas. Podíamos transformar em vídeo essa aula repetitiva em que você fica falando, falando, falando coisas que estão no livro, e deixar os encontros presenciais para propor atividades estimulantes que trazem significado.
A questão é que o ensino formal é tão focado no blá-blá-blá que a reflexão fica para a lição de casa. E é nessa hora que o aluno mais precisaria do professor. É nessa hora que o professor mais poderia contribuir com a formação do indivíduo: estando ao lado na hora de resolver um exercício, propondo maneiras diferentes de pensar, estimulando o aluno a refletir sobre as diferentes possibilidades que existem para resolver um grande problema. Para fazer essa reflexão, é preciso ter tempo. E para ter tempo, você precisa escolher o que será usado na sua aula. 
Mas é uma cultura que nunca fez parte da cultura da Universidade – pelo contrário: em vários momentos, o EaD foi criticado. Claro que tudo tem o seu lado bom e o seu lado ruim. Não estou aqui dizendo que o EaD é a melhor forma. Mas o híbrido é um bom caminho, porque usa as ferramentas das duas modalidades: a tecnologia e as possibilidades desse “estar junto”, desse momento mais reflexivo.
Então eu pude fazer no meu curso o que eu sempre quis ter feito – eu finalmente tive o aval da Universidade para isso. Nos momentos que seriam “presenciais” e reflexivos, eu fiz síncrono, usando ferramentas como o Google Meet e Zoom. E nos momentos que não precisariam ser síncronos, eu utilizei um arsenal de atividades assíncronas. Aprendi novos recursos, estudei, pesquisei. Como eu já estava aberta a essas possibilidades, foi mais fácil para mim.
Muita gente começa lutando contra, desconfiando, precisando ficar [controlando] os alunos. Mas quando você entende que pode percorrer o histórico do aluno, que pode acompanhar o tempo que o aluno entra [no sistema], você se sente mais confortável para usar esses recursos. E eu já tinha esse conforto para usar a tecnologia.
O que foi difícil, para mim, foi ter que fazer tudo em uma semana. Em uma semana, eu tive que transpor todas as minhas aulas e ainda ajudei alguns colegas. Também fiz um FAQ [guia com perguntas e respostas] para alguns colegas que me procuraram, com ideias de atividades colaborativas. Mas para usar essas sugestões, você precisa estar preparado, pronto para aceitar que o processo de aprendizagem não precisa ser fiscalizado o tempo todo. Aceitar o EaD e o ensino híbrido é dar a autonomia de aprendizado para o aluno. Você precisa confiar e não controlar todos os momentos do aluno.
Aqui estamos trabalhando com jovens adultos. Nossos alunos são muito responsáveis. Eles são uma gracinha. Quem trabalha com os alunos nas bolsas, em iniciação científica, sabe o quanto eles são responsáveis. Eles fazem tudo direitinho. Quando o aluno não tem interesse em fazer, não importa qual é a modalidade.
É preciso abrir o seu coração, se libertar do controle e deixar o aluno assumir o protagonismo. O aluno vai dominar o processo de aprendizado, e você vai estar ao lado dele quando ele precisar. Meu contato com os alunos aumentou muito. Antes eu conversava com eles uma ou duas vezes na semana. Agora, com os grupos de Whatsapp, nós conversamos duas ou três vezes por dia. E logo que você começa a conversar, começa a perceber as dúvidas e já pode corrigir o que não estiver certo. É um processo mais dinâmico.
 
Estamos ouvindo muito sobre ensino híbrido, não só porque não é possível voltar ao presencial neste momento, mas também porque algumas experiências foram positivas. A partir do seu conhecimento e da sua experiência em EaD, como o IAG poderia se preparar para oferecer uma estrutura mais adequada ao ensino híbrido?
A grande coisa seria a possibilidade de fazer materiais digitais bons, de produzir vídeos com mais qualidade. Todos os meus vídeos foram feitos aqui [no meu home office], desse jeito, com a minha casa aparecendo no fundo.  Eu tenho um exemplo claro: eu precisava resolver um exercício de uma lista com os meus alunos, e não tinha uma mesa digitalizadora. Então eu coloquei uma câmera aqui por cima da mesa, pendurada com uma máscara. Eu tenho até uma foto no Instagram. Mas é uma coisa muito mambembe, muito tosca. 
Eu trabalho com EaD há vários anos e conheço bastante sobre metodologia de ensino. Mas isso não significa produzir vídeos. Nós temos que nos preocupar com a interação e com a colaboração no ambiente virtual, com as atividades desafiadoras para os momentos presenciais, com a contextualização dos conteúdos que os alunos viram em casa. Os momentos presenciais servem para isso, para dar significado ao blá-blá-blá. Se você não tem isso, daqui a alguns anos o aluno já esqueceu. Eu mesma já esqueci de várias coisas que, na hora em que me ensinaram, não tinham significado para mim.
É preciso preparar algo melhor, mais bem feito, com pessoal capacitado. Quando você vai fazer um vídeo, precisa criar um roteiro, pensar nas imagens, usar uma configuração mais dinâmica. Esse formato com a minha imagem estática tenta reproduzir o ambiente da sala de aula, mas precisamos de algo mais interessante. Então precisamos de um pessoal que ajude na edição. 
O IAG precisa desse suporte para a produção e edição desse material. Precisamos não só de equipamentos, mas de pessoas que saibam usar esses equipamentos e que tenham tempo. Nós gravamos os vídeos do nosso Coursera [sobre Origens da Vida no Contexto Cósmico] no CCE [Centro de Computação Eletrônica da USP], onde existe essa estrutura e um pessoal muito bom.
E isso é importantíssimo. Conforme os anos vão passando, temos uma série de aposentadorias previstas no Departamento de Astronomia. Isso significa que a carga didática terá que ser distribuída entre menos docentes, que também precisam produzir pesquisa, precisam realizar extensão. Então precisamos otimizar o trabalho. Se nós tivermos vídeos de boa qualidade para todas as nossas disciplinas, podemos usar esse material na parte online das aulas. No começo vamos ter esse trabalho para elaborar o seu ambiente virtual, mas nos anos seguintes o trabalho será mais de atualização. Se você tem um modelo híbrido, consegue reduzir a sua carga de trabalho a longo prazo. 
Se quisermos dar esse passo no ensino híbrido, é preciso produzir material de qualidade. Isso significa material em vídeo e em textual – material de apoio, legendagem, inclusão. E também legendas em inglês, para a internacionalização. Muita coisa poderia ser feita, mas precisamos de pessoas capacitadas, proativas e dispostas a enfrentarem essa guerra. Será um aprendizado para todos.
O e-Disciplinas da USP é muito bom, mas talvez pudéssemos fazer algo dentro do e-Disciplinas apenas com recursos que o IAG tem mais necessidade de usar. O e-Disciplinas tem muitos recursos, e às vezes você se perde nessas ferramentas. Talvez uma plataforma mais enxuta [seja melhor]. Mas a vantagem do e-Disciplinas é que ele já está integrado aos sistemas da USP.
 
Queria conversar um pouco sobre o Programa de Mestrado Profissional em Ensino de Astronomia (MPEA), em que você estava como vice-coordenadora e que agora está assumindo a coordenação. Depois do início da pandemia, foram oito defesas virtuais no MPEA – três delas com a sua orientação. Como foi orientar um final de trabalho durante a pandemia?
O Mestrado Profissional [em Ensino de Astronomia] é incrível.
Acho que não teve tanta diferença, porque eu sempre tive uma relação muito próxima com os alunos. Nós nos falamos direto, por WhatsApp, por email, em reuniões. Por isso, não foi um impedimento. O processo é o mesmo no presencial e no online: o aluno escreve, e você acompanha. A principal diferença é que antes eu imprimia e escrevia meus comentários no papel. No começo [do online], eu cheguei a imprimir, escrever e tirar fotos para enviar para eles. Eu evitei digitar no documento, porque eu não queria editar o texto deles. Eu fiz também muitas reuniões [virtuais] para fazer esses comentários, passando ponto por ponto. 
É um cuidado que é preciso ter pela autoria. Eu não posso escrever a dissertação dos alunos, – eu oriento os alunos para que eles reescrevam de uma maneira clara e objetiva. Eu não posso editar o texto deles. E não é por falta de confiança nos alunos, mas às vezes tem uma frase que está pronta e que fica [na dissertação] no turbilhão do trabalho.
 
Como os alunos do MPEA já não ficavam no IAG durante todo o dia, como acontece com os alunos dos programas acadêmicos, talvez vocês já tivessem essa dinâmica de comunicação…
Sim. Para mim realmente não foi difícil. Mas o Mestrado Profissional é incrível, ele supera qualquer outra formação continuada. A transformação que o MPEA produz nos professores – que são a maioria dos nossos alunos – é incrível. Eles se transformam na forma de se expressar.
Muitos deles começam a dissertação como um relato de classe. Você sabe que o aluno é professor quando lê o primeiro capítulo que eles escrevem. É um hábito que eles desenvolvem nas escolas. Esses vícios acabam dificultando a escrita da dissertação em linguagem científica, e então eles precisam aprender um novo jeito de escrever. Mas eles são muito comprometidos, muito dedicados. Os alunos do Mestrado Profissional continuam trabalhando. Eles dão aulas, eles têm famílias, mas têm uma dedicação incrível. Eu sou muito fã dos alunos, eles são pessoas acima da média na compreensão do mundo.
 
No MPEA, muitas pesquisas envolvem coleta de dados no campo, que é a sala de aula. Como vocês acomodaram esses projetos depois que a pandemia suspendeu as aulas presenciais?
Eu vou citar dois projetos em especial. Um era totalmente observacional, e os alunos iriam para o pátio para observar [o céu]. Ele foi transformado inteiramente em EaD. Os alunos fizeram observações usando o celular, e aplicativos como o Stellarium. Tentamos manter o objetivo, que era levar os alunos para observarem o céu e extraírem a Física desses experimentos de Astronomia. Mas mudamos a proposta inicial, e deu tudo certo. Ela conseguiu fazer a transposição.
Com o meu outro aluno foi um pouco mais difícil, porque ele trabalhava com EJA [Educação de Jovens Adultos]. O EJA sofreu uma evasão fortíssima por conta da pandemia, o que era absolutamente esperado, porque é um público diferente, com outras prioridades. [O meu aluno tinha] uma proposta incrível, de abordar a Cosmologia de um ponto de vista mais humanístico. E o que ele fez? Ele fez vários vídeos, mas os alunos do EJA não têm o mesmo acesso à tecnologia. Então ele manteve a aplicação com um número reduzido de alunos – acho que foram 16 alunos, apenas, que participavam por celular, em grupos de WhatsApp. Ele conseguiu aplicar com esses alunos, e foi o que era possível fazer.
Os prazos [da pós-graduação] foram estendidos, mas existe uma questão pessoal. Os alunos não podem ficar adiando [a conclusão], eles precisam dar o ponto final e seguir para o próximo passo, ir para o Doutorado. Nós extraímos o melhor possível da situação, mesmo que o resultado não seja tão bom como [poderia ter sido] no presencial.
Além desses, temos a pesquisa [sobre o Astrominas]. Nós fizemos a transposição do projeto Astrominas, que foi todo online. Então a minha aluna tem mais dados do que teríamos originalmente.
 
O Astrominas foi um projeto que você havia planejado como presencial, mas que foi reestruturado depois do começo da pandemia – até porque envolvia essa pesquisa de mestrado e também algumas bolsistas. O resultado foi que tivemos quase 10 mil inscrições válidas, de todos os estados brasileiros. Como fica o futuro do projeto, depois de 2020?
Não tem volta, não tem volta. O Astrominas será online para sempre. Mas tem uma diferença em relação ao Astrominas presencial. No projeto [original], nós acompanharíamos dez meninas posteriormente. Iríamos com elas até a escola para montar um clube de ciências feminino – o clube das Astrominas na escola. Seria um acompanhamento em ambiente escolar até por esse viés de pesquisa. Essa é a grande diferença da pesquisa [de mestrado], que não vai ter essa parte presencial de acompanhamento. Mas eu pretendo retomar essa ideia no futuro.
Nós vamos continuar online, mas no futuro teremos algumas atividades presenciais. Teremos momentos online, ao longo de quatro semanas, para Astrominas em todo o território nacional. E nos quatro finais de semana, teremos atividades presenciais, em auditório, para as Astrominas de São Paulo, transmitidas ao vivo para as participantes de todo o Brasil.
A pandemia traz dificuldades, mas também traz oportunidades se você estiver esperta. É a mesma coisa com o Cecília: ele não vai voltar só como presencial [depois do fim da pandemia]. As escolas da Região Metropolitana de São Paulo poderão ser atendidas presencialmente, mas para as escolas de outras regiões ele será online. Então serão dois Cecílias: o presencial e o online.
 
A Profa. Elysandra Cypriano no Departamento de Astronomia do IAG/USP
A Profa. Elysandra Cypriano no Departamento de Astronomia do IAG/USP
 
Você pretende manter a coordenação de todos os projetos?
No começo, é importante que isso aconteça. Foi o que aconteceu no “Astronomia para Todos”, que é um projeto que eu criei para aproximar a Universidade com o não-formal, com a Astronomia amadora. Eu criei o projeto e fiquei [na coordenação] até que ele estivesse mais amadurecido. Mas aí você passa o projeto adiante, para alguém que vai continuar desenvolvendo bem essa atividade. Eu sou muito grata ao Reinaldo [Santos de Lima], porque quando ele topou coordenar o Atendimento às Escolas e o “Astronomia para Todos”, eu pude criar o Cecília e o Astrominas.
O Cecília surgiu das demandas das escolas, e eu consegui entender isso e fazer esse estudo porque fiquei muitos anos no Atendimento às Escolas. E o Cecília também atende a demanda de atividades interdepartamentais, que estão no Projeto Acadêmico do IAG.
Então a parte da coordenação mesmo [do Cecília] tem ficado para mim. Mas algumas pessoas começaram a se interessar pelo Cecília. A Marcia [Yamasoe]  e a Andrea [Ustra] acompanharam esse processo todo e produziram todos os materiais de Ciências Atmosféricas e de Geofísica, e a cada dia que passa elas estão mais integradas [ao projeto]. E nós temos colaboradores como o Eduardo Cypriano e o Marcelo Bianchi, que eu pretendo integrar cada vez mais. Também já consegui a atenção de pessoas de outras unidades, e pretendo incluí-los nas próximas rodadas. Eu acho que não pode ser uma coisa obrigatória. Os professores se envolvem quando entendem a relevância, o contexto do Cecília, a importância dele para a comunidade. O impacto do Cecília é incrível.
 
O Cecília é um projeto que integra os três departamentos, e os participantes se engajam muito com as atividades de Meteorologia...
E com Geofísica também. Na hora que temos a palestra do Enos [Picazzio], os alunos conectam imediatamente com vulcanismo. Eles perguntam se acontece nos outros planetas como acontece na Terra. E isso veio da experiência com os alunos. O Cecília era originalmente apenas da Astronomia, mas nos primeiros atendimentos os jovens perguntavam questões de Geofísica, de Ciências Atmosféricas. Para os nossos monitores, que eram astrônomos, foi uma dificuldade. E então eu pensei em aproveitar e atingir mais. As minhas ideias não surgem do nada. Os alunos e os professores me dão as respostas. Eu fui para as escolas com os monitores e fiquei atenta às perguntas, às necessidades, e dessa vivência vou tendo ideias e implementando. 
E as perguntas dos alunos trazem questões interdisciplinares. Quando você trabalha com a criançada, surgem perguntas difíceis que integram as três áreas: como seriam os mares em outros planetas? como seria a aurora em Júpiter? tem campo magnético nesse planeta? São perguntas difíceis, mesmo para nós. No Cecília virtual, os monitores têm tempo e levam essas perguntas para o grupo. Isso gera discussões profundas entre eles. Aí o Rodrigo [de Souza], que é professor e participa do Cecília, traz de volta a pergunta do aluno, e ela era muito mais simples. Mas  os monitores chegaram a um nível de profundidade incrível, e aprenderam muito no processo. Isso é muito importante na formação deles. Quando você pensa na formação de um aluno de graduação, não pode se limitar às disciplinas que você ministra. Você precisa pensar em quão bom o aluno será no futuro. E para isso ele precisa desenvolver algumas habilidades, como a criatividade e a capacidade de integrar os vários conceitos. E um projeto como o Cecília favorece isso. A formação é mais ampla e mais integrada. E ele também combate a evasão, porque os alunos ficam muito motivados.
 
Com o formato virtual, o projeto Cecília alcançou outros estados, como Minas Gerais, Ceará, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Mas ele também trouxe um contato muito próximo com os professores, e isso se repetiu na edição do Cecília para o Encontro USP Escola. O que você aprendeu com esse projeto, e com esse contato?
Eu aprendi que esse contato direto da Universidade com as escolas é uma coisa extremamente importante, e que precisa ser ampliada. Precisamos ir até as escolas, seja presencialmente ou virtualmente. No Cecília, em uma turma de 40 alunos, às vezes menos de dez irão receber o certificado de “jovem cientista”. Mas não é isso que importa. Se você pensar em uma sala, quantos têm a vocação de seguir na carreira de cientista? São esses que completam as atividades e recebem o certificado. Mas apenas o fato de que todos eles participam de um projeto da Universidade de São Paulo, que é uma universidade pública e uma das melhores do Brasil, isso traz um impacto para a auto-estima dos alunos. Eu sei disso porque vejo as publicações que eles fazem no Instagram, no Facebook. É bonitinho de ver. 
Alguns alunos vão fazer todas as atividades, e alguns vão fazer o que der pra fazer. Às vezes parece que um aluno não está acompanhando, mas quatro meses depois ele manda uma mensagem para você contando que vai prestar vestibular para estudar Astronomia.
Então a sensação de fazer parte de um programa de uma universidade como a USP, e descobrir que ela é pública, e que eles podem vir estudar aqui – tudo isso empodera os alunos e as alunas, e os professores também. Os professores são muito beneficiados. Eles acompanham as atividades, e nós conversamos diariamente. Eles aprendem nesse processo, e eles aproveitam esse material para aplicar com outras turmas.
O Cecília veio em um momento muito oportuno, porque ele ofereceu um formato que funciona à distância e que pode ser reproduzido. Nós mostramos a ciência de fronteira – nós mostramos os grandes telescópios, mostramos como os astrônomos trabalham. São conteúdos que podem ser associados à base nacional curricular, mas que não são dados nos livros.
Mas o grande impacto não é simplesmente em conteúdos. Se você pensar em um professor de Física, de Ciências, ele teria que pesquisar muito para poder abordar os conteúdos de Astronomia, de Geofísica e de Ciências Atmosféricas. E nós oferecemos um material que está pronto para ser aplicado, e que pode ser reproduzido.
Algumas pessoas podem nos criticar por oferecermos esse material pronto, sem exigir reflexão. E é claro que é importante ter a reflexão – é o que você faz quando tem tempo para isso. No Mestrado Profissional, nós refletimos sobre essa prática. Tanto que muitos materiais do Cecília foram desenvolvidos a partir do Mestrado Profissional [em Ensino de Astronomia]. Mas para um professor que está com uma carga didática de três turnos, é irreal exigir isso. O Cecília vem com essa finalidade de apoiar, de ajudar o professor a realizar o seu trabalho.
 
Em setembro, após a morte do Prof. João Steiner, você assumiu a coordenação do curso a distância para professores, “Astronomia para Docentes do Ensino Médio”. É um curso que recebeu centenas de inscrições para a edição de 2021. Quais mudanças você está preparando?
Este curso vai mudar bastante. Para este primeiro ano, eu quero trazer mais a voz do professor, quero que ele seja protagonista do processo de aprendizagem.
A proposta deste curso sempre foi de ensinar Astronomia, não de ensinar a ensinar. Mas o professor pode pensar na transposição desses conhecimentos para aplicar na sala de aula. E nós não vamos ensinar isso para o professor, porque o professor chega já com essa experiência maior do que a nossa. Nós vamos criar um ambiente de reflexão e de discussão, com trabalhos em grupo, para incentivar a reflexão entre pares no formato EaD. 
Outra mudança será no processo avaliativo. A nota também era muito baseada em provas. E eu, como professora, não gosto muito de provas como o único recurso de avaliação. A avaliação precisa ser continuada, em vários momentos e de várias formas, que compreenda as várias habilidades dos alunos. Então os alunos – que são professores – vão entregar planos de aula, experimentos feitos em casa. Serão atividades em grupo. Vamos oferecer a opção de desenvolver um projeto no final do curso, como um relato de experiência. Por exemplo: você aprendeu sobre o ciclo de vida das estrelas no curso. Então você desenvolve uma sequência didática para aplicar para os seus alunos e refletir sobre isso, comunicar essa experiência para os seus pares. Esse projeto poderia depois ser ampliado no Mestrado Profissional.
Eu tenho a ideia de fazer uma publicação, um livretinho digital com esses trabalhos. E esses trabalhos poderão ser usados por outros professores.
 
Este curso era semi-presencial, e foi transformado em EaD em 2020. Também não tem mais volta?
Não tem volta. Eu acho que seria um desperdício de recursos. Eu quero refazer todas as aulas para o ano que vem, seguindo um livro que o João [Steiner] adorava, que é o “Voyages through the Universe''. As aulas do João vão continuar, como material complementar. A minha intenção é convidar vários colegas do IAG para gravarem vídeos de capítulos específicos de sua área. Por exemplo, o Eduardo gravaria a parte sobre Cosmologia. A Vera [Jatenco-Pereira] gravaria sobre o Sol. O Gastão [Bierrenbach Lima Neto], sobre Estrutura em Grande Escala. O Enos [Pìcazzio], sobre planetas. E depois eu teria o trabalho de costurar esse material. Tudo bem, estou acostumada (risos).
 
Ao longo de 2020, você precisou conciliar todas as atividades profissionais com a sua vida em casa, com a sua família. Você poderia comentar um pouco sobre esse desafio?
Eu vi uma frase: “você não espera que vai ficar em prisão domiciliar com a sua família” (risos). A minha situação com o Eduardo é diferente. Nós estamos casados há 20 anos e sempre trabalhamos juntos, sempre dividimos salas por opção. Mas para a minha filha, que nasceu neste ambiente e precisa conviver com os dois pais, dois cientistas, cada um com as suas manias… não é fácil para ela. É mais difícil para as crianças. É mais difícil para ela do que para mim. Eu tenho que conciliar trabalho e cuidados com ela, mas ela tem que conviver com os pais o tempo todo. Eu tento ser mais tolerante, mais paciente. Eu respiro e reflito antes de começar a discutir, porque sei que não é fácil crescer na pandemia. Ela está na pré-adolescência, e está aceitando menos regras e menos ordens. Isso causaria um conflito natural, é uma relação conflituosa pela essência. E com ela em casa, única filha, sem os amigos… ela depende de nós para conversar, para expressar o que ela sente. Então eu vejo essa dificuldade não como minha, mas dela.
Eu tenho quase 50 anos, estou em casa vendo cada centímetro de crescimento dela, e isso é ótimo para mim. Mas está sendo difícil para ela. Eu desejaria que ela não tivesse que passar por isso. Uma jovenzinha, na pré-adolescência, convivendo só com os pais. Eu fico triste e torço para acabar esse pesadelo, para ela se sentir mais livre, mais feliz. Para ela poder conversar com os amigos e falar mal dos pais (risos).
O que a minha filha está sofrendo é o mesmo que os nossos alunos estão sofrendo. Na primeira reunião do Cecília, em janeiro, os monitores me perguntaram se a USP iria voltar. Eu respondi que não, e eles ficaram tristes, decepcionados. O professor tem um papel muito importante de ser empático, de ser humano e compreensivo com os alunos. Temos que conversar mais, ouvir mais. 
 
 

 

Esta entrevista faz parte de uma série de conversas com membros da comunidade IAG para refletir sobre o ano de 2020 e os efeitos da pandemia em nossas atividades. Alguns trechos foram editados, para maior clareza. Leia todas as entrevistas no nosso especial no site do IAG.
Se você também quer compartilhar sua experiência, envie uma mensagem para nós. E se você quer um espaço para conversar com mais privacidade, as portas virtuais do GABEE estão sempre abertas.