Giovani Vicentin: “Fui chamado para apresentar o trabalho nos EUA em um evento que seria em março”

selo decorativoGiovani Heinzen Vicentin já ocupou diversos papéis no IAG. Como aluno do Bacharelado em Astronomia, foi pesquisador de Iniciação Científica, aluno monitor de disciplinas, participou da monitoria no Observatório Abrahão de Moraes e atuou em eventos como as Feiras de Profissões. Agora, com a segunda graduação concluída e já matriculado no Programa de Pós-Graduação em Astronomia, é também representante discente no Conselho do Departamento. Conversamos sobre os planos frustrados pela pandemia – uma viagem internacional para apresentar seu trabalho do SIICUSP – e sobre os planos que continuam em andamento na sua trajetória acadêmica, agora no Doutorado Direto.
 
 
Como você está?
Eu estou bem, acho que o principal neste momento é a saúde. Eu voltei para casa, aqui no Paraná, quando a USP fechou as atividades [presenciais]. Logo no início da pandemia, quando USP suspendeu as aulas [presenciais], no dia seguinte o meu avô materno faleceu. Eu vim rapidamente para o Paraná e, enquanto eu estava no velório, o Paraná fechou as fronteiras com São Paulo. Se eu não tivesse vindo para cá naquele momento, eu não sei quando eu teria voltado.
Fora isso, aqui está tudo bem. Ninguém aqui em casa se contaminou até agora, então no geral está tudo bem.
 
Você se mudou para São Paulo quando começou a graduação?
Isso. Eu me mudei para São Paulo em 2016, para a graduação em Astronomia. Eu terminei o curso em 2019, e no começo de 2020 pude fazer a colação de grau presencial, no [Auditório do] IEE-USP. Também em 2020 eu fui aceito na segunda graduação no Bacharelado em Física no IFUSP, mas logo nas primeiras semanas precisamos interromper as atividades presenciais e eu voltei para o Paraná.
 
Você teve que desmontar o apartamento em São Paulo?
Não. Eu moro com dois colegas do IAG, e eu continuo com as minhas coisas lá. Eles continuam no apartamento, porque continuam trabalhando e fazendo estágio. Eu vim só com uma mala. Inclusive, eu estava esperando passar 15 dias ou um mês, e estou aqui há quase 11 meses (risos).
 
Como foi essa volta para a casa dos pais depois de quatro anos em São Paulo?
Foi um choque, porque em São Paulo eu tenho a USP, as aulas, as reuniões do meu grupo de pesquisa, e muitas coisas para fazer. Tem também os concertos, parques e museus, que eu gosto muito de ir. E quando eu voltei para cá, não tinha mais nada disso. Tenho ficado muito em casa por conta da pandemia, inclusive ainda não vi muitos dos meus amigos daqui.
Por outro lado, ao conversar com amigos de São Paulo, eu sei que sou privilegiado por poder estar aqui. Eu moro em uma casa, tenho mais espaço. O apartamento em São Paulo é bem menor, então ficar em confinamento aqui é melhor do que lá. Eu também tenho menos riscos, não preciso pegar transporte coletivo, por exemplo. Além disso, o meu pai era agricultor e tem um sítio, então às vezes vamos para lá dar uma caminhada, uma espairecida.
 
Você conseguiu aproveitar as oportunidades online oferecidas por museus, ou concertos online, durante a pandemia?
Sim. Eu gosto muito de ir à Sala São Paulo. Eu sempre tento divulgar ao máximo que a Sala São Paulo tem uma oportunidade excelente para universitários, que é o passe livre universitário. Praticamente toda semana tem concertos, e você pode ir sem pagar nada com o passe livre. E agora, por conta da pandemia, eles têm feito concertos online, que eu tenho acompanhado bastante também.
Além disso, tem as visitas online proporcionadas por museus do mundo todo, assim como o Parque Cientec da USP e outros museus brasileiros também fizeram. Acho bem legal, mas claro que não é a mesma coisa que estar lá presencialmente. É o que dá para fazer, por enquanto.
 
Você também comentou que conseguiu ver alguns poucos amigos por aí. E com os seus amigos de São Paulo, você manteve contato?
Sim. Nós continuamos conversando nas redes sociais. Também temos feito algumas vídeo-chamadas para matar as saudades, especialmente com os meus amigos mais próximos.
 
Você terminou o Bacharelado em Astronomia no final de 2019. Como foi o efeito da pandemia no planejamento que você tinha para a sua vida profissional, depois da formatura?
O desenvolvimento da vida acadêmica foi como o planejado. Eu pretendia terminar a graduação em Astronomia e seguir para a graduação em Física. E eu consegui terminar a Física em um semestre – a colação de grau foi adiada, e eu colei agora em janeiro de 2021, mas já tinha terminado todos os créditos em julho. Em agosto eu entrei no Doutorado [Direto] em Astronomia, no IAG.
Mas eu tinha outros planos também, como o SIICUSP [Simpósio Internacional de Iniciação Científica da USP]. Em 2019, no final da graduação, eu apresentei o meu trabalho no SIICUSP. Minha pesquisa de Iniciação Científica, que também foi meu trabalho de graduação, foi uma colaboração com os professores Elisabete Dal Pino e Antonio Mario [Magalhães], e fizemos um trabalho bem legal envolvendo a parte de instrumentação astronômica, observação e simulações numéricas sobre campos magnéticos cósmicos e polarização. Fui para a fase internacional [do SIICUSP], que aconteceu no CDI [Centro de Difusão Internacional], e fui premiado com Menção Honrosa. Em dezembro de 2019, ou no começo de 2020, eles chamaram todos os premiados para uma entrevista em inglês, para escolherem dez trabalhos da USP para serem apresentados nos eventos internacionais. Seria um evento na Rutgers University, e o outro na Ohio State. Eu apresentei meu trabalho novamente, dessa vez em inglês, e fiquei em quarto lugar. Fui chamado para apresentar o trabalho em um evento que seria em março. Eu estava me preparando para ir para os Estados Unidos, e há menos de duas semanas da viagem saiu a carta do Reitor suspendendo atividades presenciais e viagens.
 
Você estava com a mala pronta para Ohio, e foi para o Paraná?
Exatamente (risos).
 
Eles deram alguma informação se a viagem dos alunos do SIICUSP 2019 vai ser feita?
No ano passado, estávamos sem perspectiva nenhuma sobre quando seria o retorno. Esse evento da Ohio State University aconteceu, mas de forma online, e a USP não organizou a nossa participação nesse formato remoto. Eles tinham a pretensão de nos enviar ainda, foi o que a Pró-Reitoria de Pesquisa nos informou, mas estamos sem perspectiva de quando será a viagem. Espero que ela seja apenas adiada, e não cancelada.
 
Giovani Vicentin apresentando sua pesquisa: trabalho premiado e viagem adiada
Giovani Vicentin apresentando sua pesquisa: trabalho premiado e viagem adiada
 
Você terminou a sua segunda graduação em Física em um semestre?
Sim, sim. Durante a minha graduação em Astronomia, eu fiz muitas disciplinas na Física. Tanto porque a minha orientadora, Bete [Dal Pino], sempre sugeriu que fizéssemos essas disciplinas, mas também porque eu sempre tive bastante interesse por elas.
Eu tinha que fazer apenas uma disciplina, e fiz mais do que uma nesse semestre em que estudei no Instituto de Física. Então, um semestre foi mais do que suficiente para terminar os créditos requeridos.
 
E como foi a experiência desse semestre online na graduação?
Eu obviamente prefiro as aulas presenciais, mas no momento temos que nos adaptar às aulas remotas. A minha mãe é professora, então eu sei o quanto foi difícil para os professores se adaptarem também.
Eu gosto do fato de poder ter a aula síncrona, para participar e conversar com o professor, para tirar dúvidas, além de ter a possibilidade de rever a gravação. É bom nesse sentido. Mas, como estamos em casa, sempre tem alguma distração. O celular está aqui do lado, toca a campainha, alguém chama aqui fora. Tem várias coisas que podem nos fazer perder a atenção.
Então eu acho muito, muito melhor a aula presencial – todas as atividades presenciais. Não tive nenhuma experiência ruim pelo fato de ser online, nas provas ou seminários. Tudo correu bem. Mas acredito que o aproveitamento teria sido melhor como presencial.
Eu também estou tendo a experiência da aula online na Pós-Graduação...
 
Tem sido muito diferente fazer as disciplinas de Pós-Graduação no formato online?
Existe essa questão de serem muitos diferentes os processos de avaliação, tanto na mudança do Ensino Médio para a Graduação como na passagem da Graduação para a Pós-Graduação. Mas por eu estar trabalhando há um bom tempo com a minha orientadora, desde a Iniciação Científica, foi bem tranquila a passagem de Graduação para Pós-Graduação.
No semestre passado eu fiz três disciplinas, o que foi bem puxado. Então eu deixei um pouco de lado a parte da pesquisa, as simulações, também por uma orientação da Bete, para focar nas disciplinas. Em um semestre eu já fiz metade das disciplinas que eu preciso cumprir, então eu pretendo terminar os créditos neste ano e focar bastante na pesquisa.
Eu tentei estudar mais do que eu estudava na Graduação, tentei pegar mais firme com as disciplinas para seguir e não perder nada. Como na Pós nós trabalhamos muito com simulações, leitura de artigos e seminários, talvez a diferença entre o formato presencial e o online não tenha sido muito brusca. Mas eu também nunca fiz disciplinas de Pós-Graduação no formato presencial (risos).
 
Você comentou que a sua mãe é professora. 
Ela é professora do Estado, do Ensino Médio, de Português e Espanhol. Ela ainda está se ambientando.
Tivemos que melhorar o plano de internet, porque aqui é home office de todo lado (risos).
 
A sua orientadora da Pós-Graduação é a Professora Elisabete Dal Pino, que já orientava a sua Iniciação Científica. Como foi para iniciar a orientação do Doutorado, mas em formato remoto?
Bom, antes de mais nada, a Bete é uma excelente orientadora. O nosso grupo também é muito unido, e apesar da pandemia, nesse ano tivemos muitas coisas para comemorar. Vários alunos do nosso grupo publicaram artigos, foram premiados em eventos do IAG e da USP. Nós continuamos tendo todas as nossas reuniões do grupo, no formato online. Só agora neste período de janeiro e fevereiro temos uma folga. E esporadicamente nós fazemos reuniões [individuais].
A Bete nos cobra bastante, o que é bom, mas ela também tem sido muito compreensiva com o fato de que cada um está vivendo uma experiência diferente nesta pandemia. Temos pessoas no grupo que perderam familiares por conta da Covid-19, ou que estão passando por outros problemas, e ela tem sido bastante compreensiva. 
Eu fiz uma disciplina com ela, que foi muito boa, e farei outra neste ano. Ela tem me recomendado vários artigos para leitura, assim como seria no formato presencial. Então o nosso ritmo de estudo e pesquisa tem continuado a todo vapor. O nosso grupo trabalha com simulação numérica, e podemos continuar mesmo trabalhando remotamente.
 
Em termos de recursos para pesquisa, vocês precisam então de acesso a equipamentos de computação?
Isso. Tem algumas simulações de teste que cada um consegue rodar no próprio computador. Para simulações mais pesadas, temos o cluster do nosso grupo, que é o GAPAE, e o Laboratório de Astroinformática, o LAi. Os outros membros [do grupo] estão fazendo suas simulações remotamente. Nós conseguimos acessar o GAPAE remotamente, com VPN.
 
Você precisou fazer alguma adaptação no cronograma do seu projeto, para levar em conta a pandemia?
Não, porque já estava em pandemia quando eu entrei. Ficou planejado que nestes dois primeiros semestres eu iria focar na atualização da literatura e nos créditos necessários. Por enquanto eu estou lendo artigos e fazendo as disciplinas, para terminar o mais rápido possível. Nós temos um colaborador, o Dr. Alex Lazarian, da University of Wisconsin-Madison, e a Bete sugeriu que eu passe um tempo nos Estados Unidos para colaborar com ele. Então quero terminar logo as disciplinas para poder ir.
 
Você agora é representante discente do Departamento de Astronomia?
Sou. As vezes eu digo que abraço o mundo, porque já fiz de tudo (risos). Representação discente, Centro Acadêmico, monitoria nas Feiras de Profissões, no Observatório [Abrahão de Moraes], monitoria de disciplina… Atualmente sou representante discente titular no Departamento de Astronomia e suplente na Comissão de Pesquisa (CPq).
 
Como foi a monitoria no formato de aula online?
Eu fui monitor da disciplina de Astrofísica Estelar. Eu já tinha sido monitor [dessa disciplina] em 2019, com o Prof. Jorge Melendez, e em 2020 eu fui monitor com a Profa. Jane [Gregorio-Hetem]. Nós tivemos horários de plantão de dúvidas – o plantão, que era presencial, nós passamos para o formato online. Eu continuei elaborando listas e ajudei a professora na elaboração das provas. Foram as mesmas atividades que eu fiz na monitoria presencial.
 
A procura dos alunos foi igual?
No começo, achei que os alunos procuraram menos pela monitoria. Quando passamos do formato presencial para o online, a procura diminuiu nos plantões de dúvidas. Talvez porque os alunos estavam se familiarizando com tudo, ou porque eles tinham muitas coisas para fazer.
Mas nós tivemos um momento do curso em que a professora começou a disponibilizar as aulas gravadas. Em vez de termos dois encontros síncronos na semana, participávamos juntos de uma aula/plantão de dúvidas ao vivo. Tirávamos dúvidas da disciplina como um todo, das listas e das provas. Nesse momento, a procura passou a ser maior, porque quase todos os alunos participavam.
 
Como aluno, qual sua visão sobre a relação com o IAG e com a Universidade nesse período de pandemia?
Eu acho que todo mundo está sendo muito compreensivo nesse momento. Agora eu recebo emails do IAG e do Instituto de Física, e vejo que tem a possibilidade de atendimento para os alunos. No IAG tem o GABEE, e na Física tem atendimento individual com psicólogos. 
Também teve o acesso a computadores e à internet, que foi oferecido pela USP para alunos que não têm. Alguns membros do nosso grupo emprestaram um computador do IAG para pesquisar e estudar em casa. Não foi o meu caso – eu tenho o meu computador e uma internet razoável. Mas eu acho que a USP e os Institutos têm feito um esforço grande para que possamos fazer as nossas atividades com menos prejuízo.
 
Durantes esse período de pandemia, você teve muitos papéis diferentes – egresso do Bacharelado em Astronomia, estudante de Graduação no IF/USP, agora aluno de Pós-Graduação no IAG, monitor de aula… De tudo o que você viu, alguma coisa foi interessante e deveria ser mantida no futuro?
Acho que algumas disciplinas funcionaram bem no formato online, como a disciplina de cálculo numérico. Então talvez mais disciplinas possam ser oferecidas nesse formato no futuro, mesmo após o fim da pandemia.
Eu também aproveitei a colaboração da USP com o Coursera e fiz três cursos com certificado na plataforma deles. Ainda estou concluindo outros cursos e acho interessante que essa parceria continue.
A questão da monitoria online eu também achei interessante, e poderia ser mantida mesmo depois que voltarmos às atividades presenciais. O plantão de dúvidas online pode ser uma boa oportunidade para atender os alunos que trabalham, ou que por outros motivos não conseguem participar do plantão presencial. 
 
 
 

 

Esta entrevista faz parte de uma série de conversas com membros da comunidade IAG para refletir sobre o ano de 2020 e os efeitos da pandemia em nossas atividades. Alguns trechos foram editados, para maior clareza. Leia todas as entrevistas no nosso especial no site do IAG.
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