Jane Gregorio-Hetem: “Os alunos querem participar da sociedade, querem contribuir”

selo decorativoJane Cristina Gregorio-Hetem é professora do Departamento de Astronomia, com muita proximidade com os estudantes do curso de Bacharelado em Astronomia. Em 2020, ela ministrou as disciplinas para os ingressantes e para os formandos do Bacharelado em Astronomia. Ela também desenvolveu o programa “Mania de Ensinar: apoio ao ensino a distância”, que mobilizou estudantes da graduação em uma atividade didática voltada ao Ensino Fundamental II.
 
 
Queria saber como você está, depois de tantos meses de pandemia e isolamento.
Eu acho que eu sou muito organizada. Então mesmo com essa sobrecarrega de trabalho, principalmente no primeiro semestre com todo o aprendizado de como preparar as aulas, do contato com os alunos, de repensar as avaliações… eu acho que eu consegui me adaptar bem, por causa da minha organização. Mas trabalhei às vezes das 6 horas da manhã às 10 horas da noite. 
Nós realmente tivemos que repensar tudo. Eu não queria de forma alguma simplesmente reproduzir no Ensino a Distância os mesmos trabalhos e procedimentos que eu adotava no presencial. A avaliação foi uma coisa que me tomou muito tempo pensando no que cobrar, em como cobrar. É uma avaliação com consulta, que é diferente.
No contato com os alunos, mantivemos  um grupo de WhatsApp para cada turma. E se um aluno tinha uma dúvida à meia-noite e eu estava acordada, eu respondia. Essa parte parece cansativa, mas eu não me senti mal. Levei tudo para o lado positivo desse aprendizado novo, felizmente.
 
Um episódio que eu lembro do começo do ensino a distância no IAG foi os professores da Astronomia buscando o contato de uma das ingressantes, que não estava participando das aulas. Como foi esse contato com os novos alunos, que praticamente iniciaram suas vidas acadêmicas no modelo online?
Foram praticamente duas semanas de aula [presencial] antes da pandemia. Essa matéria é de duas horas semanais, e nós nos encontrávamos apenas às terças-feiras. Os ingressantes também começam as aulas uma semana depois, porque tem a Semana de Recepção. Como tudo parou no dia 17 de março, tivemos apenas esses dois encontros. E foi uma turma muito tímida, foi um pouco complicado para conversar pela internet. Então eu tive essa dificuldade de não conhecer todos tão bem.
A minha disciplina, em particular, tem um pouco essa função de integração da turma. Eu dou uma matéria que em termos de conteúdo é mais básica,  quase uma “Física Zero”, um “Cálculo Zero”, para prepará-los para enfrentar as Físicas e os Cálculos. Eu reforço com eles que é um momento de se integrarem com a forma de estudar na universidade, que é totalmente diferente.
A aluna [que você mencionou] era de intercâmbio, então ficamos ainda mais preocupados, pois ela estava se instalando em um país novo, com uma língua diferente. E ela estava bem adaptada, participando ativamente dos primeiros encontros, até fez as primeiras avaliações. De repente, ela desapareceu, e não respondia no WhatsApp, ou no email. A forma de encontrá-la foi pelas redes sociais. Uma outra colega enviou mensagem no Facebook, e ela me respondeu por email. Ela havia sido assaltada depois de um procedimento médico no Hospital Universitário (HU), e ficou sem o telefone celular. Ela tentou acompanhar por um tempo, mas foi ficando muito difícil e ela voltou para casa. Só tivemos notícias quando ela já estava desistindo. Mas foi uma situação muito difícil mesmo, de fazer a adaptação em um país nessa situação.
Tivemos também outro aluno, muito tímido, que não tinha condições de acesso às aulas porque precisava de equipamento. Eu cheguei a ver [com a Seção de Informática] o empréstimo de um computador do IAG, mas essa questão de patrimônio era muito complicada. O que eu acabei fazendo: eu tinha um tablet sem uso, e eu o emprestei para esse aluno. Marcamos um encontro em um sábado de manhã, em uma estação de metrô que ficasse entre a casa dele e a minha. Eu queria ajudar, mas a comunicação era muito falha, e ele era muito tímido nas respostas. No dia do encontro, eu fiquei meia hora esperando, e ele não aparecia. Eu comecei a pensar que talvez ele não tivesse visto a mensagem. Por outro lado, se ele viesse, eu não queria que ele perdesse a viagem.
Então eu falei com um funcionário da estação, expliquei que sou professora, que precisava entregar o material para um aluno, que precisava muito disso para estudar e assistir às aulas. Eu expliquei que era uma situação especial. O funcionário do Metrô disse que não poderia receber [um objeto], ainda mais sendo um eletrônico. Eu insisti, e ele acabou aceitando, mas disse que ficaria até as 14:00 e não poderia passar para o colega do próximo período. Eu concordei que iria buscar [o tablet] se passasse desse horário e mandei uma mensagem para o aluno, explicando com quem ele poderia pegar o tablet. Mais tarde o próprio rapaz do Metrô me ligou e avisou que o tablet havia sido entregue. Eu voltei na estação para buscar o termo de empréstimo [que o aluno havia assinado]. O tablet continua com o aluno. Ele até me falou de devolver no meio do ano, mas eu disse para ele me devolver na formatura. Foi assim que ele conseguiu se virar um pouco, e assistir às aulas. São exemplos dessas coisas loucas que precisamos inventar para resolver os problemas que surgiam.
 
Com o passar do tempo, quando ficou mais claro que ia demorar mais para voltar, foi viabilizada essa questão de empréstimos de equipamentos, e as Pró-Reitorias distribuíram os kits de acesso à internet. Mas demorou um pouco mesmo. Ainda sobre essa turma de ingressantes, você sabe se eles continuam matriculados, ou se já tem muitos casos de evasão?
Eu só sei de dois que desistiram – a estudante de intercâmbio e um rapaz que veio na quarta chamada, que fez matrícula quando já estávamos na pandemia. Eu me comuniquei muito com ele, ofereci extensão nos prazos para entregar os trabalhos, tentei oferecer apoio para que ele continuasse. Mas ele acabou não fazendo as provas. Era também uma situação difícil. Na minha disciplina, eu não o vi mais, mas não sei ainda se ele desistiu do curso como um todo.
Também tivemos casos que eu nem considero como evasão, mas como uma saída boa. Você sabe que o curso de Ciências Moleculares da USP procura convidar os bons alunos de todos os outros cursos de Exatas. E no meio do semestre, dois dos meus alunos  me contaram que foram convidados e decidiram tentar [a transferência para o curso de Ciências Moleculares]. Para eles é vantajoso, pois eles podem voltar se não der certo. Então eu não considero evasão, porque eles continuaram na Universidade.
Eu vejo que os alunos estão se adaptando. Alguns deixaram de fazer as matérias mais difíceis – não desistiram do curso e pegaram mais leve justamente para “aguentar o tranco”. O que eu posso dizer é que eu continuei acompanhando cerca de dez alunos, que é metade da turma, porque eles vieram fazer parte de  um projeto [comigo]. Eu contei a ideia [do projeto] para eles no final do primeiro semestre, e eles se encantaram.
 
Esse é o projeto Mania de Ensinar, certo? Poderia falar um pouco sobre ele?
Eu sempre brinco que temos essas ideias malucas de projetos como se não tivéssemos mais nada para fazer. Mas [o Mania de Ensinar] é um projeto para tentar ajudar a situação do Ensino Básico. É como um plantão de atendimento online de dúvidas, especificamente para crianças nessa idade – que não são muito novinhas, nem são os mais velhos que já têm mais independência. Vimos nesta pandemia que a criança dependia da ajuda dos pais e das mães para fazer a lição, porque o professor não teria como atender todos os alunos da mesma forma [que no presencial]. E se o pai e a mãe não estivessem em casa, ou se eles mesmos não conhecessem esses assuntos? Então criamos esse plantão de dúvidas com os alunos [do bacharelado em Astronomia].
E esses alunos se encantaram de tal forma com esse projeto que eles continuam comigo até hoje, como uma equipe. Eu queria bolsas para todos – consegui quatro, o que eu já considero um sucesso. Então quatro alunos são bolsistas e seis são voluntários, e continuam firmes e atuando. Cada um tem a sua tarefa.
Tivemos uma discussão sobre qual plataforma usar. Uma preocupação que eu tinha era o que as crianças poderiam usar para se comunicarem [conosco], e percebemos que o celular era a ferramenta mais popular de comunicação. No início, eu pensei no WhatsApp, mas seria muito difícil com um número muito grande de participantes, e teria a exposição do telefone dos próprios alunos. Acabamos migrando para o Instagram, que é uma forma de ter um grande grupo de usuários e que as respostas possam ser dadas de forma coletiva e de forma individual. 
E tivemos sempre reuniões, mesmo depois que já não tínhamos aulas juntos, e eram reuniões de trabalho. Eles contavam o que estavam fazendo. Tem a equipe de identidade visual, para os que têm essa habilidade de criar, de preparar os posts. Os outros, de comunicação, gerenciam email e Instagram. Tem a equipe de produção de conteúdo, que é um aprendizado importante. Eles tiveram que pesquisar o que se estuda de Astronomia no Ensino Fundamental. Nós começamos a fazer um banco de perguntas e respostas, parecido com o estilo do “Pergunte a um astrônomo”. E temos os plantonistas. Fizemos “simulados” para eles verem como é ficar de plantão, responder dúvidas rapidamente, interagir no Instagram e na sala do Google Meet ao mesmo tempo.
É uma atividade profissional, que contribui para que eles se preparem para situações no futuro desse trabalho remoto. Eles vão tirar de letra.
 
Como vem sendo a participação no Mania de Ensinar?
Depois que montamos esse grupo, começamos a procurar as escolas. Escrevemos para as escolas divulgando o projeto e convidando para que se inscrevessem no nosso Instagram para receberem essa assessoria. Procuramos aquelas escolas que haviam se inscrito no [projeto Cecília], que estava suspenso no atendimento presencial. A ideia é que os professores fizessem a ponte com pais e alunos, para que fosse uma parceria profissional, e não uma conversa de rede social.
Não fizemos de forma muito aberta no começo, porque os monitores são do primeiro ano, precisam ganhar prática e confiança. As perguntas não vão ser tão complicadas, mas a forma como se responde é muito importante. Eu uso sempre o exemplo de um eclipse lunar e de uma fase da Lua – são fenômenos totalmente diferentes, mas se você explicar por meio de sombras, você induz a um conceito errado. Muita gente aprende errado e nunca mais esquece.
Tivemos no semestre passado o processo de criação. Agora temos essa estrutura montada, os monitores estão com esse aprendizado adquirido. Cumpriu muito bem essa parte, mas vamos ver se neste semestre conseguimos trabalhar com mais escolas, com mais usuários, e talvez divulgar o projeto mais amplamente.
No final de semestre a procura estava baixa, e muitos professores nos falaram que eles estavam desanimados porque muitos estudantes já não estavam mais participando das aulas. Esse já é outro problema que eu não sei como resolver. Mas vamos ver neste semestre, se atendemos mais escolas e conquistamos mais usuários.
Algumas pessoas me falaram que haveria mais procura de alunos do Ensino Médio, porque o pré-vestibulando está mais preocupado em estudar. Mas eu acho que nessa idade eles já são mais capazes de procurar, de pesquisar na internet, enquanto o pessoal mais novo precisa desse nosso acompanhamento.
 
A expectativa é que as escolas comecem a retomar as atividades presenciais ao longo deste ano. Você vê o Mania de Ensinar como uma atividade que tem potencial para continuar depois do fim da pandemia?
Sim! Sempre tem estudo para ser feito em casa, com a ajuda de pais e mães. Se começarmos a criar o hábito na criança para nos consultar, mesmo na volta das aulas presenciais, ela vai lembrar quando precisar de ajuda na lição de casa. Estamos oferecendo um serviço de monitoria, que espero que continue ajudando.
Estou aproveitando as férias para criar o site  do Mania de Ensinar [com a Incubadora de Sites da USP], que me deu uma assessoria boa. Imagino que vamos ter mais procura. Este semestre será chave para criarmos um caminho, e o resto virá naturalmente.
A escola que mais nos procurou em 2020 foi uma escola do Pará. Olha que legal: conseguimos atender um grupo tão distante, e podemos ter nossos alunos de Astronomia em contato com estudantes de todo o país. Temos várias ideias, quem sabe atender em outros países de Língua Portuguesa na África, por exemplo.
 
Qual o valor de um projeto como o Mania de Ensinar para os estudantes que já estão na graduação?
No final do ano eu perguntei o que acharam, como eles estavam. Eles me disseram que ter esse sentimento de fazer parte de algum grupo de trabalho, de estar dentro de um projeto, é que tinha trazido motivação para eles continuarem estudando. Eles querem fazer mais, além de estudar. Eles querem participar de uma atividade que forneça um retorno para sociedade, eles querem contribuir. Eles viram projetos de sucesso no IAG, como o Cecília e o Astrominas, e ficaram felizes de fazerem parte do Mania de Estudar.
Fiquei feliz, mesmo que o projeto não tenha avançado tanto [entre as escolas], porque para os nossos alunos teve esse benefício de aprendizado, de envolvimento, de trabalho em equipe. 
 
Nós percebemos que os grupos de pesquisa e também de atividades de extensão ajudaram muito a manter os estudantes mais motivados nesse ano.
Sim, eles gostam de fazer parte de algo importante. Vemos vários grupos no IAG já bem estabelecidos, e são os que mais atraem os alunos. Porque um indica para o outro, conta que é legal, fala do orientador. E a turma vai se inserindo nesses grupos.
Nós fizemos em abril o evento das tutorias. Nós sempre organizamos  esse evento para apresentar os professores e projetos aos alunos ingressantes e aos alunos do segundo ano, e desta vez fizemos [no formato] online, com algumas apresentações de professores. Alguns professores não se apresentaram, mas os incluímos em uma lista de projetos e contatos. 
Nem todos os professores têm essa vocação para atender um aluno tão novo. Alguns trabalham melhor com um aluno mais em final de curso, com a Iniciação Científica pronta para virar uma Pós-Graduação. Investir em alunos que ainda não têm essa base ferramental dá mais trabalho, mas felizmente temos alguns docentes que atendem.
O Prof. Sylvio [Ferraz-Mello] uma vez chegou pra mim dizendo que eu tinha indicado um aluno excelente. Ele ficou admirado porque o aluno escrevia emails quando tinha terminado a tarefa, às 22:00, e perguntava o que mais poderia fazer. Ele era muito bom, já se formou. E ele não foi para a Pós-Graduação. Então também é um papel importante do curso desmistificar a pesquisa. Às vezes o aluno entra com um sonho de ser pesquisador, e não tem o perfil. E é importante descobrir isso antes de começar a Pós-Graduação. Esse aluno, por exemplo, se deu muito bem com a programação. Essa experiência de Iniciação Científica com o Prof. Sylvio, de intercâmbio nos EUA e um TG (Trabalho de Graduação) bem legal o ajudaram a encontrar [o lugar dele]. É nosso papel deixar o jovem se encontrar com o que ele se dá bem.
 
Além das aulas de graduação e do Mania de Ensinar, você também realizou atividades de orientação e de pesquisa em 2020. Essas atividades correram bem?
Algumas pessoas se adaptaram mais [facilmente] Uma das alunas que eu oriento se desenvolveu bem com as reuniões a distância. Ela está com o trabalho praticamente pronto – precisa cumprir créditos por mais um semestre, mas poderá concluir no meio do ano.
A outra orientada é mais tímida, e fizemos mais contato por email e WhatsApp. Ela também precisava de equipamento do IAG. Agora no final do ano conseguimos comprar um computador novo para ela poder trabalhar em casa, e eu espero que ela consiga agora desenvolver mais [a pesquisa]. Mas ela conseguiu cumprir alguns créditos, e as disciplinas tomaram bastante tempo dos alunos. Alguns colegas até “exageraram” um pouco e foram mais exigentes, deram mais trabalhos no semestre a distância.
Enfim, foi possível  trabalhar com as orientações, não foi um ano perdido. E na pesquisa também, porque eu tive mais tranquilidade. No IAG eu me disperso mais, porque sempre tem alguém para atender, algum aluno que vem conversar. Em casa eu pude organizar os horários, e consegui publicar dois artigos no final do ano. Fiquei bem feliz, porque no começo tudo parecia ir contra: a preparação de aula em vídeo, os trabalhos a mais para preparação das disciplinas. Eu pensei que não daria tempo de fazer mais nada, mas fiquei feliz de ter mantido a peteca no ar.
 
Os astrônomos talvez tenham sido menos prejudicados do que os geofísicos e os meteorologistas, porque precisam ter acesso aos dados – mas não a amostras, a equipamentos de laboratórios e muito menos a campo.
Nós demos bastante sorte. Um dos artigos que concluímos envolveu dados observacionais. Alguns observatórios realmente fecharam inicialmente, mas abriram para acesso remoto. Aí entra a facilidade de operar o telescópio remotamente. Então obtivemos dados a distância em outubro, e em dezembro o artigo estava pronto com esses dados novos.
Mas, realmente, não dependemos de um laboratório para trabalhar junto com um técnico, algo que envolva recursos humanos. Tendo os dados, podemos trabalhar a distância.
 
Profa. Jane Gregorio-Hetem durante discurso como paraninfa do curso de Astronomia
A Profa. Jane Gregorio-Hetem proferindo discurso como paraninfa da turma de formandos do Bacharelado em Astronomia
 
Já conversamos bastante sobre os ingressantes, mas todas as turmas de Astronomia têm sempre uma proximidade com você, tanto que você já foi paraninfa de várias delas...
O Alex [Carciofi] e eu somos muito convidados, por termos sido Coordenadores do Curso. Ficamos mais próximos deles, tentamos resolver as questões, e isso marca um pouco mais. Fico um pouco acanhada, mas também fico super  feliz. Nas formaturas eu sempre choro, parece que é nosso filho que está se formando, dá muito orgulho. Vemos eles crescendo, porque eles entram com 18, e saem aos  23. Eles viram adultos nas nossas mãos. É uma sensação de pai e mãe, sempre me emociono.
 
E como foi o contato esses alunos que estão concluindo, ou perto de concluir? 
Por coincidência, eu cuido da turma do primeiro semestre e também estou acompanhando os TGs. E neste segundo semestre tivemos 10 potenciais formandos. Foram dois no primeiro semestre e mais dez agora. Ainda não é garantido, porque eles têm outros créditos a cumprir, e as disciplinas ofereceram muita dificuldade. Mas podemos ter até 12 estudantes formados em 2020, sendo que entram 20 por ano. Para a área de exatas, é um sucesso. 
E eu fiquei bem impressionada, porque apesar do ano difícil os alunos conseguiram concluir o TG com trabalhos de qualidade. Um dos alunos precisava do cluster de computadores, e teve dificuldades no acesso a distância. Ele estava preocupado e considerou adiar, mas conversamos e sugerimos que ele remodelasse o objetivo final. O aluno e o orientador adaptaram [o trabalho], e ele apresentou. Ele pode dar continuidade na Pós-Graduação, não precisa fazer tudo agora. O TG é um espaço para eles terem o aprendizado do método científico, de redação e de apresentação de resultados.
Tivemos um ano excepcional. A apresentação foi online, e em nível de simpósio. Fiquei muito orgulhosa dessa turma. 
 
Durante alguns eventos online, como o Simpósio de Iniciação Científica e o IAG Science Day, vimos como os estudantes incentivavam os colegas pelo chat da transmissão.
Eu adorei ver todos aplaudindo, inclusive alguns que eu nem imaginava que tinham esse contato. É uma turma muito unida, e essa amizade é uma coisa muito importante para eles permanecerem no curso. Eles são realmente próximos. Não sei como será a formatura, online. 
 
A USP não autorizou cerimônias de colação de grau. Então o Serviço de Graduação está enviando o certificado de conclusão com a autenticação digital.
Sim, nem devemos mesmo fazer [presencial], infelizmente.
 
Para finalizar, quais aprendizados desta pandemia vão permanecer?
Vou dar um exemplo de uma matéria intersemestral, chamada Manobras Orbitais. É uma matéria bem atrativa para os alunos, mas conta com professor externo e tinha que ser realizada no período de férias, como uma semana de imersão no laboratório de informática. Nem sempre conseguíamos oferecer, porque ela é [ministrada por] um professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), e o calendário dele é diferente do nosso. E em 2020 oferecemos a disciplina totalmente online, no segundo semestre. Deu muito certo, e eu acho que ela não volta para o presencial. Tivemos os vídeos gravados, e os alunos usaram os seus computadores. Recomendamos que os alunos assistam os vídeos, e damos um plantão semanal de dúvidas para conversar e interagir com eles.
Não precisamos mais ficar daquele jeito: professor/lousa/aluno. Podemos cada vez mais ter as vídeo-aulas e usar o tempo que passamos juntos para algo mais produtivo e interessante, como exercícios, dúvidas, projetos. Os alunos reclamavam de assistir às aulas, e para os professores também era cansativo. Não tem mais sentido ter um sistema antiquado de ensino centrado na figura do professor. Nas minhas aulas, quero aproveitar muito esses recursos e essas ideias. Aprendemos a fazer, e agora vamos melhorar. 
 
Uma coisa que está surgindo nestas conversas sobre readaptação é a questão de equilibrar o online e o presencial.
Eu espero que as pessoas passem a confiar mais nesse “ensino híbrido”. Existia um pouco de preconceito, especialmente com a avaliação. Muitas pessoas pensam que, tendo a oportunidade, os alunos serão fraudulentos. Eu acho que é o contrário – sempre vai ter uma minoria que vai tentar fraudar no online e no presencial, mas a maioria faz direitinho e tem interesse em aprender. Precisamos pensar nessa maioria, em vez de criar cercas e impedimentos.
Não tivemos condições de fazer uma escola realmente a distância, porque o Ensino a Distância envolve mais ferramentas que ainda não usamos, e que não estamos preparados para usar. Mas eu confio que oferecemos um bom ensino [em 2020], e talvez até um aprendizado melhor. Porque quando o aluno se compromete com o que está estudando, ele lê mais, pesquisa mais. E isso fixa [o conteúdo], não fica na cabeça só até fazer a prova. Os alunos foram obrigados a se esforçarem mais, a irem atrás do próprio aprendizado.
Tem muita coisa boa para ser aproveitada, das aulas e das reuniões. Eu pude assistir vários seminários, do Rio de Janeiro, do Mackenzie, vendo pessoas que eu não teria condições de assistir se tivesse que me deslocar. Vamos aproveitar mais esses encontros a distância. Não precisamos fazer tudo igualzinho como era antes.
 
 

 

Esta entrevista faz parte de uma série de conversas com membros da comunidade IAG para refletir sobre o ano de 2020 e os efeitos da pandemia em nossas atividades. Alguns trechos foram editados, para maior clareza. Leia todas as entrevistas no nosso especial no site do IAG.
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