Júlia Mello de Oliveira: “Chegou um momento em que eu tive que parar, e eu parei”

selo decorativoJúlia Mello de Oliveira é estudante do bacharelado em Astronomia e suplente da representante discente na Congregação do IAG. Atua como monitora no programa de atendimento às escolas do Departamento de Astronomia, realiza pesquisa de Iniciação Científica no Departamento de Astronomia e também participou das edições de 2020 dos projetos Cecília e Astrominas. Conversamos na segunda semana de 2021 sobre mulheres na ciência, sobre a dificuldade de organizar os horários e sobre a experiência de voltar a morar com os pais.
 
 
Como você está agora, neste começo de 2021?
Talvez um pouco mais esperançosa do que em 2020. Eu acho que agora eu estou conseguindo assimilar um pouco mais as coisas, e imaginar como vai ser. Porque ano passado foi um susto, de não saber ou entender o que estava acontecendo. Então eu acho que este ano será um pouco mais tranquilo, por eu já estar mais acostumada.
 
O seu segundo semestre está finalizado?
Falta ainda uma nota. Eu fiz quatro matérias, em três eu já estou aprovada e falta uma nota. Mas a princípio, está tudo certo.
 
Mas como foi o acompanhamento de aulas a distância em 2020? Quais foram as principais dificuldades para você?
Eu não sei até que ponto eu devo ser otimista, ou se eu devo falar como foi realmente (risos). No primeiro semestre, eu fiz menos matérias e consegui manter um pouco a rotina de horários. Eu fui no embalo mesmo, porque eu já tinha a grade de horários na minha cabeça e fui seguindo isso. Nesse aspecto foi um pouco mais tranquilo. Mas a parte psicológica estava um caos. No começo, eu tinha esperança de voltar logo e estava me sentindo ok. Mas quando chegou maio, junho, a época de final de semestre, foi bem difícil. E isso ainda não foi pior do que o segundo semestre, para mim.
No segundo semestre, começou a cair a ficha de que ia ficar assim muito mais tempo do que o planejado. Eu também comecei a ter muita dificuldade com as aulas síncronas, ao vivo. Eu não estava mais conseguindo seguir o cronograma das aulas. Eu consegui fazer todas as atividades, mas pequei um pouco nisso de assistir as aulas nos horários. E eu ainda estava no ciclo básico, então tinha matérias obrigatórias da Física, que estavam mais difíceis. Principalmente uma matéria prática de Física Experimental, que precisava de muitas adaptações para ser feita [remotamente]. Então eu tive que dar prioridades para as aulas que eu achei que seriam mais importantes para mim. Eu ia por fora: quando chegava alguma coisa para fazer, eu fazia. Mas eu não consegui seguir 100% as ementas dos cursos.
Para 2021, eu estou com mais esperanças de conseguir me organizar de uma forma que não prejudique os meus estudos, mas que também não me prejudique. No primeiro semestre [de 2020] eu priorizei os estudos, e no segundo semestre eu priorizei a mim mesma, porque estava precisando cuidar da minha saúde mental e me estabilizar um pouco mais. Estou tentando achar um equilíbrio entre os dois, para ter uma situação mais tranquila. Então não pretendo ficar me cobrando demais.
 
As aulas do primeiro semestre, especialmente, foram muito prejudicadas porque não foram criadas como cursos onlines. Os professores tiveram que adaptar o material do curso presencial, e em poucos dias. Mas você acha que teve algum ponto positivo de ter feito as aulas remotamente ao longo de 2020?
Eu não me considero uma pessoa autodidata, então para mim é sempre importante ter um professor falando, cobrando, puxando um pouco e tirando dúvidas. Então eu conheço muita gente que teve o estudo melhorado no virtual, mas esse não foi o meu caso.
O que eu acho que foi um ponto positivo foi ter a flexibilidade nos meus horários, porque eu podia fazer [as aulas] nos horários em que eu me sentisse mais disposta e um pouco mais produtiva. Mas talvez isso não funcione tanto para mim, porque eu não tenho a disciplina necessária.
 
Muitos alunos também tiveram que voltar para a casa dos pais durante a pandemia, como foi o seu caso. 
Eu mudei de cidade [no começo da pandemia]. Depois de ter passado um ano sozinha em São Paulo, eu voltei para a casa dos meus pais, e foi toda uma readaptação. 
Eu nunca ficava tanto tempo sem ver meus pais, mas foi muito difícil ter que voltar a conviver 24 horas por dia com eles de novo. Minha mãe está trabalhando de casa e eu nunca tinha tido isso. Minha mãe sempre trabalhou fora, então eu nunca tinha ficado tanto tempo, tantos dias seguidos com uma pessoa ali do meu lado. Querendo ou não, ter o pai e a mãe sempre com você é uma cobrança a mais, e isso pesou um pouco. 
Eu preferia estar em São Paulo e voltar [para a casa dos pais] a cada 15 dias, seria mais benéfico para mim e para eles. É bom ter um pouco de saudades.
 
Júlia Mello de Oliveira acompanhou os calouros durante visita ao Parque Cientec
Júlia Mello de Oliveira (roxo) acompanha seus calouros durante a visita ao Parque Cientec, no começo de 2020
 
Além das disciplinas, você também teve atuação na área de divulgação científica e agora com a Iniciação Científica.
Eu comecei em 2020 com a bolsa PUB do Projeto Cecília. Eu acho que a parte acadêmica foi mais difícil, mas a parte de projetos foi bem beneficiada, na minha visão. Nós adaptamos o Cecília para o formato virtual. Demorou um pouco, mas nos organizamos e montamos um programa [de atividades], montamos um site e abrimos as vagas. Era inicialmente um projeto só para a Grande São Paulo, e acabamos abrangendo o Brasil todo e atendemos escolas de muitos lugares diferentes. Isso foi muito interessante, e ter participado do Cecília foi um aprendizado muito grande. A minha bolsa acabou no mês de setembro, quando eu estava bem afetada pela pandemia. Eu tive que dar uma pausa no Cecília, mas vou voltar agora no primeiro semestre [como voluntária].
No final do ano eu soube de uma oportunidade de bolsa de Iniciação Científica com a Profa. Cláudia [Mendes de Oliveira]. Eu me apliquei e consegui essa bolsa. Estamos bem no comecinho ainda, mas tem sido muito diferente a experiência [de pesquisa]. Antes, eu só tinha tido contato com divulgação e extensão, mas está sendo muito bom. Funciona bem para o formato virtual, mas eu acho que o problema maior é não ter a infraestrutura do IAG. Para rodar os programas, eu precisaria de outro Sistema Operacional no computador. São coisas que eu nunca fiz sozinha. Então meu co-orientador sugeriu que eu continue como eu estou, fazendo o máximo possível. No futuro, talvez voltar aos computadores do IAG.
 
Esta é a sua primeira Iniciação Científica de pesquisa, até porque você está terminando agora o seu Ciclo Básico. É uma área na qual você já tinha interesse?
Esta é uma área que me interessa muito, que é estelar, sobre variabilidade de supernovas. Eu ainda não formei uma preferência por áreas, ainda pretendo experimentar outras no futuro. Mas eu estou descobrindo esta área, talvez eu me apaixone por ela e fique.
 
Você também estava envolvida no Projeto Astrominas, certo?
Sim. No meio disso tudo de 2020 eu tive o Astrominas e o Atendimento às Escolas. Toda a parte de extensão foi sensacional para mim, porque eu aprendi muito e consegui fazer muita coisa que me deixou muito orgulhosa.
Eu entrei como voluntária no Astrominas na mesma época em que eu entrei como bolsista do projeto Cecília, no final de 2019. Os dois projetos são da Profa. Elysandra [Cypriano], e ela me convidou quando o Astrominas ainda estava sendo preparado para a versão presencial.
O Astrominas é um projeto de levar as ciências exatas para meninas do Ensino Básico, e ele foi completamente adaptado para o formato a distância. Como foi online, conseguimos abrir o projeto para o Brasil inteiro. Tivemos cerca de 10 mil inscrições, e acolhemos 600 meninas. Foram cinco semanas de aulas, palestras, e foi incrível. Eu tive contato próximo com um grupo de dez meninas, e foi lindo ver o quanto elas aproveitaram esse primeiro contato com vários assuntos.
 
Você foi uma das fadas do Astrominas, mas o projeto também trouxe várias mulheres cientistas. Você já as conhecia? O Astrominas permitiu esse contato também para vocês? 
Eu não conhecia várias das mulheres. Mas algumas eu já tinha como exemplo, e foi muito muito muito incrível ouvi-las falando coisas tão inspiradoras. Eu ajudei na organização dos vídeos, e pude ver e conhecer muita gente. É sempre bom poder ter esse contato, ter essas pessoas como referência. Eu conheci a minha orientadora de Iniciação Científica, a Profa. Cláudia, no Astrominas.
Foi um boost de vontade para continuar na Astronomia, mesmo com as dificuldades de 2020. 
 
Você já fazia parte do Atendimento às Escolas. Essa também foi uma atividade interrompida no primeiro semestre e que foi retomada de forma online no meio do ano. Você sentia que a presença de monitoras como você fazia diferença para as professoras e alunas nesses Atendimentos?
Eu sempre faço questão de dar uma incentivada a mais nas meninas, porque eu acho isso muito importante. Foi algo muito importante para mim quando eu estava na escola, então eu tento realmente continuar nessa prática de dar uma puxadinha a mais com as meninas e ver quem tem esse interesse.
 
A sua atuação como monitora criou uma dualidade de papéis para você em 2020. Ao mesmo tempo em que você tinha as suas dificuldades como estudante de graduação, como monitora de atividades de extensão você estava vendo as dificuldades dos estudantes de Ensino Básico. Incentivar os alunos mais jovens foi um incentivo para você?
Eu acho que foi uma via de mão dupla mesmo. Eu tentava ser para elas o que eu gostaria que alguém tivesse sido para mim. Ver o brilho nos olhos, o amor delas pelos assuntos me incentivava também. Por causa desses alunos e dessas meninas, eu pude conhecer muitas coisas e muitas pessoas que também me inspiraram. Eu via que elas tinham as mesmas dificuldades que eu, e era importante transmitir esse ânimo para continuar.
 
Você participou de três atividades de extensão e começou a Iniciação Científica em um ano tão difícil. Por que ter tantas atividades? 
Eu acho que teria sido pior sem todas essas atividades. Foram elas que me mantiveram fazendo as coisas. Porque essas atividades não eram só para mim, eu estava lá pelas outras pessoas. Uma atividade na qual as pessoas dependiam de mim me deu bastante alegria e muito incentivo para continuar fazendo também as coisas que eram para mim, porque é muito difícil estudar só para você, com só você dependendo disso.
 
Você acha que alguma coisa poderia ter sido feita pelo IAG para aliviar um pouco um ano que foi tão difícil para os estudantes?
Eu acho que a Graduação [da USP] ajudou bastante para o currículo, facilitando a questão de excluir as matérias, em vez de trancar. Eu não sei se poderia ter sido feita mais alguma coisa.
Eu sei que no IAG tem a iniciativa do GABEE (Grupo de Apoio ao Bem Estar Estudantil). Eu não cheguei a conversar com eles, mas é uma iniciativa boa e que pode ter ajudado muita gente. E os professores do IAG com quem eu tive contato foram muito acolhedores, e entendiam o que estava acontecendo. 
 
Você conseguiu manter contato com os seus colegas?
Eu tive muito contato com muita gente. Talvez com algumas pessoas eu tenha perdido essa proximidade, mas eu sempre tentei juntar as pessoas para conversar. Isso sempre foi uma questão muito importante para mim, porque eu sei que tem gente que não tem tanta facilidade de manter esse contato a distância. Conseguimos fazer uma rede de apoio muito legal, com a maioria da minha turma.
 
Foi muito marcante para mim ver o incentivo e o apoio entre vocês nos eventos online, sabendo que vocês não estavam naquele ritmo de convívio físico no IAG.
O contato presencial no Centro Acadêmico e entre as aulas sempre foi muito importante para nós, então eu senti que havia a necessidade de [manter a proximidade] em um semestre tão difícil. Não é a mesma coisa, não é o mesmo nível de interação, mas foi uma interação.
 
O que você aprendeu em 2020?
Eu acho que eu aprendi a respeitar o ritmo do meu corpo e do meu psicológico. Eu aprendi que se eu não estiver bem psicologicamente, nada que eu fizer vai ser tão bom quanto poderia ser. Eu aprendi realmente a cuidar de mim e a respeitar os meus limites. Chegou um momento em que eu tive que parar, e eu parei. Depois eu voltei, e deu tudo certo.
E também aprendi a importância de dar valor ao que nós temos. Porque o 2D dificulta muito toda a interação social. Então eu aprendi a dar valor mesmo às pessoas que estão ali, que me apoiam, que me ajudam, porque elas foram muito importantes para mim.
 
Apesar de tudo, acha que alguma adaptação de 2020 deve ser mantida para os próximos anos?
Minha maior expectativa é para os projetos de extensão. É importante eles estarem presentes na USP, claro, então talvez possamos mesclar as atividades presenciais. Mas nós pudemos chegar em lugares onde os projetos não costumam chegar. Eu acho isso muito importante, porque eu sou do interior e nunca tive acesso a projetos que existem na Grande São Paulo.
A parte acadêmica, eu já não sei… se eu tiver a opção, eu prefiro o modo presencial. A avaliação talvez tenha melhorado, porque eu percebo nos professores uma tendência de realizarem outros tipos de atividades, outros modos de avaliar que são mais abrangentes.
 
 

 

Esta entrevista faz parte de uma série de conversas com membros da comunidade IAG para refletir sobre o ano de 2020 e os efeitos da pandemia em nossas atividades. Alguns trechos foram editados, para maior clareza. Leia todas as entrevistas no nosso especial no site do IAG.
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