Lázaro Valério: “Estou há vinte anos nesta função e tive que reaprender como trabalhar”

selo decorativoLázaro Valério é chefe do Serviço de Apoio Operacional do IAG. A equipe é responsável pelas ações de manutenção do Instituto e vem mantendo ação presencial em todo o período da pandemia, atuando em escala. Quando conversamos, na segunda semana de 2021, ele estava trabalhando remotamente, mas em contato com os funcionários que acompanhavam no IAG a limpeza das caixas d’água.
 
 
O Serviço de Apoio Operacional não parou, mesmo em 2020, e vocês tiveram atividade presencial em escala durante todo o ano. Poderia contar um pouco sobre como vocês atuaram nesse ano?
Eu estou há 20 anos trabalhando nesta função, e tive que aprender a trabalhar de outro jeito.Tivemos que reaprender como trabalhar. Então para mim o que mais mudou foi a maneira de lidar com tudo isso, de ter que resolver sem estar presente no IAG. Mas às vezes se torna impossível resolver [remotamente]. Tanto que quando a USP criou as “bolhas”, engessou muito [a nossa escala], e inviabilizou o nosso trabalho.
Na minha área, eu sempre consegui manter alguém por lá, sempre pude contar também com o pessoal terceirizado. Mas eu, pelo menos, recebi ligações e consultas de domingo a domingo.
 
Você pessoalmente precisou ir com que frequência para o IAG?
Foram poucas as semanas que eu não fui, que foi possível resolver tudo remotamente. Praticamente em todas as semanas eu estive lá.
 
Muito se falou sobre teletrabalho e isolamento, mas várias atividades precisaram ser mantidas presencialmente e continuamente. Quais são essas ações “invisíveis”?
O que nós enxergamos pouco foi o pessoal terceirizado. Eu sei que muitas pessoas manifestaram sua preocupação com os terceirizados [que atuam] no IAG, eu sei que muitas pessoas viram o esforço deles. Mas eles não pararam em nenhum momento. Eles não tiveram essa oportunidade.
E eu sou extremamente grato a eles, porque quando nós não temos pessoal do quadro no IAG, são eles quem resolvem. Nós orientamos e instruímos por aqui, mas o pessoal terceirizado foi “ponta firme”. Fiquei muito orgulhoso da equipe toda.
 
Falando em terceirizados, a Universidade e o IAG alteraram alguns contratos com as empresas terceirizadas em 2020… 
Não sei por que cargas d’água, provavelmente foi pela preocupação com o orçamento, para conseguir honrar os contratos até o final do ano. Mas resolveram cortar os contratos. A vigilância não teve cortes, mas cortaram na limpeza, que é onde não se podia cortar. Também fomos forçados a cortar o contrato de copeiragem.
Isso inviabilizou algumas empresas. Com essa redução de contratos, teve um pessoal que foi mandado embora [pelas terceirizadas]. Algumas empresas fecharam as portas, não só pelo [contrato com o] IAG, mas por tudo. Isso foi muito difícil.As copeiras que trabalhavam conosco, e o pessoal com mais de 60 anos que prestava serviço na limpeza – esse pessoal foi cortado, e sem perspectiva de volta.
 
A partir do momento em que a cidade de São Paulo começou a avançar no Plano SP, parte do pessoal do IAG começou a retornar para o prédio. Os cortes nos contratos foram sentidos?
Eu esperava que tivéssemos mais problemas com relação a essa volta. O pessoal estava mais no ritmo com essa pandemia. Ou talvez tenham sido tantos cortes no passado que as pessoas já estavam esperando por isso. Então eu não tive reclamações sobre a limpeza, ou por falta do café. As pessoas fizeram o café e se viraram As pessoas que estavam por lá se adaptaram às mudanças.
 
Como você fez para manter a escala na manutenção?
O pessoal da manutenção realmente não parou. Eu não tive a mesma demanda [nesse período], então tentei montar uma escala com eles. Cada um optou por algum dia na semana, em que ele obrigatoriamente estaria no IAG. Esse é o fixo. Nesses dias eles também assumiram atividades como a higienização de bebedouros, a reposição de álcool [nos dispensers]. 
E excepcionalmente, nas emergências, fizemos as convocações em outros dias. Às vezes eu sou obrigado a ligar para um deles pedindo para ir apagar um incêndio – não um incêndio literal, geralmente eram problemas hidráulicos, como um vazamento no banheiro. Nesses casos nós não temos outra opção, precisa ser presencial. 
 
Mas outras atividades, como o acompanhamento da manutenção de aparelhos de ar condicionado, não estão mais acontecendo.
Não temos aparelhos ar condicionado [ligados]. Somente existe ar condicionado hoje onde é essencial, para máquinas, para os clusters. Todos os pedidos para religar o ar condicionado em outras salas foram negados. Então o contrato de manutenção foi interrompido, porque eram cerca de 380 máquinas que não estavam sendo utilizadas.
Mas a dedetização ocorreu [durante o recesso] e inacreditavelmente o número de pedidos para não dedetizar algumas salas foi muito pequeno, foram talvez quatro salas. Hoje está acontecendo a limpeza da caixa d’água, temos pessoal lá acompanhando a empresa. Então continuamos trabalhando.
 
Além das ações de rotina, vocês também acompanharam e executaram ações para preparação do prédio do IAG para voltar a receber pessoas.
Sim. Foi colocada uma porta nova na Seção de Informática, e deu tudo certo. Com os protetores de acrílico [instalados em balcões de atendimento], tivemos alguns problemas porque vários deles caíram. A empresa honrou o compromisso, mas foi uma trabalheira para nós. Também instalamos dispensers de álcool nos corredores, e acompanhamos para fazer a reposição. O pessoal terceirizado também nos ajuda muito avisando quando está faltando álcool em algum lugar.
 
Como ficou o movimento mensal de pessoas no prédio?
Chegou a ficar em 5% dos acessos [de períodos regulares], de passagens pela catraca. Foram basicamente alunos de Pós-Graduação, um grupo de pessoas da administração que foi bem assíduo, alguns setores que precisavam estar por lá.
 
Nós falamos bastante até agora sobre o prédio na Cidade Universitária. Mas como vem sendo essa atividade na Estação Meteorológica e no Observatório "Abrahão de Moraes”?
Na Estação Meteorológica, nós aproveitamos para fazer uma obra de manutenção. Refizemos a laje, pintamos as salas de trabalho, refizemos o piso em um dos espaços. Isso foi feito nesse período, mas com empresas contratadas.
No Observatório, o pessoal da manutenção está no mesmo sistema que na Cidade Universitária. Eles têm dias fixos.
 
Para a Estação Meteorológica também foi mantida uma escala de transporte do IAG…
Sim, isso entrou na escala porque é preciso enviar trabalho para os técnicos da Estação Meteorológica. Os motoristas fazem a retirada do material da Estação para entregar para os técnicos, que analisam os dados e depois devolvem para a Estação o material da semana anterior. O transporte foi outro setor que não parou. Temos um motorista afastado, como grupo de risco, mas os demais continuam bem ativos, não falharam em nenhuma semana. Houve também algumas viagens de campo.
 
Como foi o procedimento de segurança para essas viagens de campo?
No início estávamos um pouco soltos, mas atualmente é feito o pedido de autorização com o [Comitê Assessor do IAG], e só depois dessa autorização é que se libera o veículo para a viagem. A pessoa retorna e fica em quarentena antes de voltar à atividade normal do Instituto.
[Um dos motoristas] contou que em uma das viagens, no lockdown, ele voltou com fome, porque nenhum lugar estava aberto para ele comer.
 
De tudo isso que vocês viveram em 2020, tem algum procedimento que surgiu com a quarentena e que você pensa em manter?
Eu acho que havia um preconceito [com o teletrabalho], mas vemos que muita coisa se produziu a partir de casa. Muitas atividades você vai poder fazer, mesmo que tenha algum afastamento. Nós tínhamos reuniões em que você tinha que sair do campus para ir até a Água Funda [na Estação Meteorológica], ou para Valinhos [no Observatório], e hoje fazemos isso pelo computador. O WhatsApp foi inacreditável como uma ferramenta para trabalhar, porque resolve tudo na hora. Não fica nada para trás.
 
Eu queria concluir a conversa perguntando sobre a sua situação em casa. Vocês dois estavam em teletrabalho, você indo mais para o IAG, e vocês têm um filho que também estava em casa, depois que as escolas suspenderam as aulas presenciais. Como você se adaptou a essa situação?
Eu não me adaptei (risos). Você não tem noção de como foi. Era difícil manter o meu filho ocupado em casa, até porque a escola demorou bastante para entrar no ritmo [do ensino a distância]. No início eles acharam que o isolamento não iria demorar muito, então eles simplesmente fizeram algumas aulas gravadas. Isso era a morte para ele, e para mim também, porque eu ficava ao lado dele. Reclamei bastante com a escola, mas depois eles realmente adotaram [o formato online] e o meu filho começou a se ver na obrigação de fazer as atividades, de participar com os amigos. Isso funcionou melhor para ele e para nós, que agora podemos deixá-lo fazendo as aulas. A Janaina [Mítica] também tem as suas atividades. Ela recebe todos os dias os contatos do público do Observatório, algumas pessoas querendo fazer agendamentos. Tem pessoas que realmente questionam por que não estamos fazendo o “Noite com as Estrelas”, ficam até bravos. Então a mudança em casa foi total. Eu nem usava computador em casa, abominava isso, e acabei trazendo um computador [do IAG] para eu trabalhar aqui.
 
 
 
 

 

Esta entrevista faz parte de uma série de conversas com membros da comunidade IAG para refletir sobre o ano de 2020 e os efeitos da pandemia em nossas atividades. Alguns trechos foram editados, para maior clareza. Leia todas as entrevistas no nosso especial no site do IAG.
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