Leonardo Kamigauti: “A coisa mais importante foi a atenção que as pessoas começaram a dar para a saúde mental”

selo decorativoLeonardo Yoshiaki Kamigauti é estudante de Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Meteorologia do IAG. A pesquisa dele tem foco em poluição atmosférica e material particulado, atuando com o Laboratório de Processos Atmosféricos do IAG – LAPAt. Sua formação na graduação foi em Geofísica, também pelo IAG, e ele faz uso de recursos como o Laboratório de Paleomagnetismo em sua pesquisa. Conversamos em fevereiro sobre expectativas durante a nova realidade e a importância de se falar sobre saúde mental.
 
 
Antes de mais nada, como você está?
Agora, acho que estou melhor do que antes. Considerando que essa pandemia foi um dos piores anos do planeta Terra, acho que estou até bem.
 
Você disse que está melhor agora. Teve algum momento em que você não estava bem?
Essa pandemia foi bem “treta” em questão de depressão, na falta de contato físico e em todas as coisas relacionadas à saúde mental. Foi bem complicado.
 
O pessoal da pós-graduação do IAG costumava ficar muito no Instituto, em contato constante com o próprio grupo. Vocês continuaram se reunindo virtualmente?
As reuniões do grupo migraram para o Meet, e migraram bem, deu até mais certo do que eu imaginava. Mas ainda temos coisas que fazemos “offline”, que temos que ir para [o IAG] resolver, já que eu sou da área experimental. Mas no que deu para deixar virtual, as pessoas se adaptaram rapidamente. Pensei que seria mais complicado.
 
Você precisou frequentar o IAG para ter acesso a laboratórios e equipamentos? Quais as normas de segurança que vocês adotaram no Laboratório de Processos Atmosféricos (LAPAt)?
Sim, inclusive antes de ontem [eu estava no IAG]. Eu não uso só o LAPAt, na verdade eu uso mais o Paleomag [Laboratório de Paleomagnetismo da USP]. No LAPAt estão os meus materiais e eu faço algumas pesagens, mas o principal do meu trabalho está sendo magnético agora. E lá [no Paleomag] está uma operação de guerra desde que começamos a ouvir falar da pandemia. O Ricardo [Trindade] começou logo a organizar, e realmente deu muito certo. Eles foram bem empenhados.
O LAPAt é um laboratório menor. Não estamos tão abertos para outros grupos, então as coisas são resolvidas caso a caso. Nós evitamos ir no mesmo dia que outra pessoa. Nós sabemos da vida de todo mundo (risos), nós sabemos o que cada um está fazendo. Essa é a vantagem de ser um laboratório mais restrito. Nas vezes em que eu fui preparar amostras, não tinha encontrado nenhum outro ser humano. Foi só nesta semana que a Rosana [Astolfo] marcou para me ensinar a usar o EDX [Equipamento de Fluorescência de Raios X], que é um dos equipamentos mais importantes do laboratório, porque ela está entrando em férias e nós temos infinitas amostras para fazer.
 
O Prof. Ricardo de Camargo mencionou que, mesmo durante a pandemia, o pessoal do grupo de poluição continuou trabalhando presencialmente em alguns equipamentos. Foi o seu caso?
Sim, e foi o caos. Foi feito um investimento para realizarmos uma medição agendada em alguns laboratórios do IPT [Instituto de Pesquisas Tecnológicas] – estávamos vendo isso desde muito antes da pandemia, e deveria ter acontecido no começo do ano [passado]. Pensamos primeiro em esperar a pandemia passar, porque achávamos que ela duraria poucos meses. O pessoal do IPT também chegou a ser afastado. Mas depois eles voltaram ao trabalho [presencial] e nos avisaram que o equipamento que nós estávamos usando nesse projeto teria que ser enviado para um outro cliente.
Então nós tivemos que terminar as medições dentro do prazo que estava no contrato, porque não iríamos jogar fora o investimento – e o meu doutorado (risos). Foi complicado também porque o tipo de medida que eles fazem é muito diferente do tipo de coisas que nós fazemos. Eles não precisam, por exemplo, de um ambiente tão limpo [para as medidas]. Tínhamos pedido algumas coisas específicas e eles nos entregaram coisas que não eram condizentes. 
Nós pensamos que seria um mês de medidas, mas todo o primeiro mês foi para prototipagem, construção e testes de um equipamento, com o relógio correndo. Foi um mês muito intenso para montar com o IPT esse equipamento, que acabou  tendo 3 andares de altura. E foi uma dor de cabeça gigantesca para resolver isso, mas experimental é assim: você se prepara para Y, e acontece Zeta. Quando finalmente conseguimos começar a amostragem, não havia tempo para fazer todas. Tivemos que cortar várias.
Foi corrido e um pouco desesperador, e foi quando percebemos que a pandemia não iria durar só uns três meses. Eu também tinha tido pedra nos rins [um pouco antes], minha sogra descobriu um câncer e minha mãe estava de cama. Aconteceu tudo junto, então foi bem complicado.
 
Esses são dados da sua tese? Como estava o planejamento da sua pesquisa em 2020, e de que formas o seu cronograma foi afetado?
Sim. Na verdade, as coletas deveriam ter terminado em 2019, e para 2020 eu tinha planejado fazer um intercâmbio na Universidade de Surrey [Inglaterra] pelo CAPES–PrInt [Programa Institucional de Internacionalização]. Eu tinha feito o processo de seleção, mas eles fecharam o edital por conta da pandemia. No meio do ano eles reabriram o edital e eu fui aprovado, mas agora estamos postergando a data de ida até haver abertura, talvez com a vacina. Por enquanto, a CAPES ampliou o prazo até maio, mas estamos dependendo dessas prorrogações para não perdermos o edital.
 
Essas questões vão interferir nos seus prazos do doutorado?
Com certeza. [O prazo é de] cinco anos, só que na prática a bolsa acaba em quatro. Eu queria terminar em quatro anos, mas não vai dar. Vou ter que ficar um ano sem [dinheiro]. Tomara que não precise de prorrogação, mas também tem outras questões. Eu queria fazer dez mil medidas diferentes no Paleomag, mas dois dos equipamentos que eu uso quebraram. Até chegaram a ser consertados, mas isso deu pouca vida útil para eles antes que quebrassem de novo.
 
Você já tinha cumprido os créditos, ou fez alguma disciplina online em 2020?
Eu fiz no começo de 2020 a preparação pedagógica para o PAE [Programa de Aperfeiçoamento de Ensino] e uma disciplina de Magnetismo de Rochas [e suas Aplicações à Geologia e Geofísica]. Eu achava que seria péssimo, mas nós nos adaptamos.
Em comparação à aula presencial… acho que não tem como comparar. No começo da pandemia nós não tínhamos muito esse esquema de como nos comunicarmos, como fazer uma pergunta. As pessoas ficavam muito recatadas, sem saberem como se expressar. Os professores, quando estão apresentando os slides, não podem ficar vendo as câmeras das pessoas. Então nós definimos essa linguagem não-verbal online, antes que surgisse a ferramenta de levantar a mão
E os professores se flexibilizaram muito. Acho que eles tiveram três vezes mais trabalho com as disciplinas (risos). Eu tive sorte de estar com bons professores, que foram humildes e demonstraram quando não estavam na zona de conforto deles. Acabamos agindo como uma equipe, todos tentando se ajudar, e isso deu muito certo. 
Eu ainda tenho um pouco de crédito [para cumprir], e estou pensando se vou abonar com artigos e congressos ou se faço uma disciplina “da hora” relacionada a estatística.
 
Você chegou a atuar como PAE em alguma disciplina na graduação?
Não, porque eu tinha o plano de viajar. Eu ia ver isso depois de voltar.
 
Leonardo Kamiguati apresentando seu trabalho durante o IAG Science Day
Leonardo Kamiguati apresentando seu trabalho durante o IAG Science Day
 
O pessoal do LAPAt continuou com muita pesquisa de campo, até porque o isolamento afetou a qualidade do ar nas grandes cidades. Como foi a rotina do laboratório na pandemia?
Nós temos três equipes principais. Temos o pessoal que lida com material particulado, que vai todos os dias trocar filtros, e tem esse trabalho que demanda essa organização. Eu sou parte desse grupo.
Tem também o pessoal de gases. Eles têm muito trabalho para colocar o equipamento para funcionar, mas depois podem deixar o equipamento fazendo medidas, sem precisarem ir para campo fazer a coleta todos os dias. Na nossa estação em Jaraguá, é preciso ir trocar o pendrive só a cada três ou quatro meses. E tem o pessoal de modelagem que fica o dia inteirando “tretando” com o computador (risos). É outra “vibe”.
Tivemos [no LAPAt] duas campanhas importantes durante a pandemia. Na primeira, tinha que trocar um filtro no IAG a cada três dias. O pessoal do Thiago [Nogueira] organizou muito bem um sistema para isso. São trocas bem rápidas – quando você chega no laboratório, já está tudo pronto na mesa para fazer isso da forma mais eficiente possível. Em menos de meia hora, eles pegam os filtros já prontos, fazem a troca rapidamente e colocam para automatizar.
O outro projeto, o MetroClima, é do pessoal de gases. É um projeto gigantesco, em parceria com a NASA. Eles têm amostradores espalhados em vários pontos, principalmente Universidades, que oferecem espaço. Então durante a pandemia eles tiveram que terminar a instalação, que já tinha sido iniciada antes, e agora eles vão trabalhar no computador.
E tem ainda o pessoal do LuMiAR, que é um laboratório móvel. Mas nós não precisamos ficar dentro dele – ele fica operando estacionado em algum lugar.
 
Você ficou responsável por algum deles?
Eu fiquei mais responsável com a análise de filtros, então eu fiquei bastante no LAPAt pesando os filtros que coletamos no IPT. Agora eu estou passando bastante tempo no Paleomag, com as coletas feitas nos túneis.
 
Que tipo de pesquisa você faz que usa tanto o LAPAt como o Laboratório de Paleomagnetismo?
Eu faço análises que faríamos em rochas, mas na poeira do ar. Esse é o “tchan” do meu trabalho, foi por isso que eu saí da Geofísica e estou unindo [a pesquisa] com a Meteorologia.
Nós temos um problema [de pesquisa]: tem Ferro em todos os lugares. Se você pegar um imã e passar na rua, ele vai coletar pedrinhas, porque elas têm Ferro. Carros também têm Ferro – eles são feitos de Ferro. E quando um carro passa na rua, ele suspende o Ferro da poeira que está no chão e emite Ferro, por causa do freio e das fricções internas no motor.
As nossas análises no LAPAt são químicas, então nós só identificamos que tem Ferro na amostra. No Paleomag, nós conseguimos diferenciar os tipos diferentes de óxidos de Ferro e as moléculas diferentes a que eles estão associados. Eu quero usar meu trabalho no Paleomag para separar essas duas fontes, e aplicar isso nos estudos do LAPAt. Os carros são a fonte mais importante de emissão de poluentes em São Paulo, e conseguir separar a fonte traz mais clareza e resolução para a pesquisa do LAPAt.
Conversar com as duas áreas foi um desafio no começo, mas vale a pena.
 
De toda essa experiência de 2020, você acha que valeria manter alguma adaptação?
Eu acho que a coisa mais importante foi a atenção que as pessoas começaram a dar para a saúde mental. Foi finalmente uma preocupação mundial, até nas grandes empresas. É importantíssimo que isso seja mantido.
E acho que as medidas sanitárias que estamos tomando agora deveriam ser tomadas sempre. Não o distanciamento social – isso já deu, e ninguém quer mais. Mas o uso de máscaras nas ruas, quando você está doente, é uma coisa que deveria ser assumida como cultura. Eu estava vendo o São Paulo Fashion Week – porque eu faço algumas coisas aleatórias, por causa de RPG –, e as coleções todas desse ano envolveram máscaras. Tem certas coisas que são mesmo um “novo normal”, mesmo que as pessoas não gostem [dessa expressão].
Outra coisa é que as gerações mais antigas estão aprendendo a utilizar softwares de tudo quanto é tipo. Isso pode contribuir muito para pessoas que moram longe e não tinham muito contato com a família. Um novo canal foi criado. Espero que isso contribua um pouco com as questões de desinformação também, mas nisso eu acredito menos.
 
Você achou que esse cuidado com a saúde mental aconteceu também na USP e no IAG?
Meu psicólogo é da USP, é da Psico [Instituto de Psicologia da USP]. Mas o problema é que eu fiquei três anos na fila de espera. Eu tenho problemas com depressão desde sempre, e a graduação foi péssima para mim nesse aspecto, porque eu não tinha esse auxílio. O GABEE, que foi criado depois, é uma iniciativa legal porque aumentou o “awareness” [conscientização], mas não tem apoio profissional. Mas o que foi mais impactante [na pandemia] foi que os professores, dentro das aulas, claramente tinham essa preocupação. Não é mais aquela coisa de “quem estiver precisando pode procurar ajuda”, agora é um pensamento geral que está sempre presente.
Eu fiz aula com o [Ricardo] Trindade, e ele falou que é importante que os professores conversem com os alunos, perguntem como estão e criem um canal empático, para que todos tenham um sentimento de pertencimento. Essa mudança na dinâmica de aula foi fundamental e me ajudou muito nesse processo. Era isso que estava faltando no IAG – estava muito separada uma coisa da outra.
 
Os professores também sentiram os efeitos do isolamento, então havia talvez mais entendimento sobre essa questão. 
Exatamente.
 
Você sempre se envolveu em muitas atividades. Você participou da IAG Júnior na graduação, você toca música, sempre gostou de fotografia e participou de exposições no Instituto. Você conseguiu ter esse lado extracurricular durante o isolamento?
Não. Eu tive que parar tudo, porque não conseguia mais lidar com as coisas por questão de saúde mental. Foi um baque muito grande, muito [repentino] e duradouro. No começo, eu tentei lidar com vários projetos em que eu participava em paralelo, mas chegou um ponto em que não dava para continuar. Foi uma força maior. O pior de tudo foi que várias pessoas dependiam de mim nesses projetos. Eu só pude pedir desculpas para essas pessoas. Isso foi muito complicado para mim, mas foi o melhor [que eu poderia fazer].
Eu vejo as pessoas dizendo que é importante ir além do trabalho e ter coisas paralelas – hobbies e atividades curriculares – para não perder a sanidade, mas para mim foi o contrário. Eu sempre fiz muita coisa ao mesmo tempo. Eu sempre completei o meu tempo, eu tinha coisas para fazer 24 horas por dia. Mas eu tive que me estruturar e trabalhar menos, porque estava tentando trabalhar demais e ficava exausto, sem conseguir me concentrar. Eu aprendi que preciso fazer menos coisas, e fazer coisas que não sejam programadas ou compromissos com outras pessoas. Eu tive que abandonar praticamente tudo. 
 
Quais são as expectativas agora?
Minhas expectativas estão um pouco mais baixas. Nós começamos a pandemia fazendo piadas sobre estender o carnaval, e no fim nós trabalhamos 3 vezes mais. Acho que foi um efeito global. O começo da pandemia foi absurdo nesse aspecto. Até que todos se esgotaram, e agora estamos nos reencontrando. 
Eu tinha três artigos para escrever, e só agora terminei. Nós submetemos dois artigos literalmente ontem. São trabalhos que, sem a pandemia, teriam sido finalizados em dois meses, e acabaram levando um ano.
Então eu estou mais aberto. Estou olhando a quantidade de coisas para fazer e a impossibilidade de fazer todas elas. Estou pensando nessas [concessões], em desistir de algumas coisas para poder fazer as outras. Isso vai diminuir a quantidade de coisas que eu queria fazer no doutorado, mas eu vou poder terminar.
Isso mexeu muito com as expectativas que eu tinha com o Doutorado até antes do início da pandemia Eu queria que ele fosse o mais abrangente possível, que fosse uma base que eu poderia continuar usando no pós-doutorado e quando virasse professor. Eu queria olhar para trás e pensar “que trabalho ‘da hora’”. Hoje eu entendo que não preciso sentir orgulho de beber água, de fazer as coisas que eu tenho que fazer. Acabar o Doutorado é o meu trabalho. Ele não precisa ser o melhor Doutorado. Desde que eu faça o melhor que eu posso nas condições que nós temos, isso não vai fazer de mim uma pessoa pior. Estou na fase de aceitação de que as coisas não vão dar tão certo.
 
Você percebe que, mesmo que ele não seja tudo o que você sonhou, o seu trabalho ainda terá um caráter de originalidade para o laboratório.
É, mas eu queria… É uma coisa que eu penso desde o final da graduação, e não mudou muito. Eu me encontrei na pesquisa. 
 
 
 

 

Esta entrevista faz parte de uma série de conversas com membros da comunidade IAG para refletir sobre o ano de 2020 e os efeitos da pandemia em nossas atividades. Alguns trechos foram editados, para maior clareza. Leia todas as entrevistas no nosso especial no site do IAG.
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