Ricardo de Camargo: “As disciplinas me ajudaram a segurar a onda”

selo decorativoRicardo de Camargo é professor do Departamento de Ciências Atmosféricas e responsável pela disciplina “Introdução às Ciências Atmosféricas”, oferecida aos ingressantes do curso de Bacharelado em Meteorologia. É vice-presidente da Comissão de Pós-Graduação e membro suplente na Comissão de Graduação do IAG. Neste bate-papo, realizado na primeira semana de 2021, conversamos sobre os efeitos do isolamento social prolongado, a adaptação das aulas para o formato online e as perspectivas para o futuro da Universidade.
 
 
Pra começar, eu queria saber como você está.
Eu comecei encarando bem, achando que o tempo que íamos ficar nessa seria menor. À medida que [o isolamento] foi ficando cada vez mais interminável, eu fui ficando meio “pancada” mesmo. Eu estou acostumado a um convívio intenso, mesmo sendo um cara extremamente caseiro, que não vai em balada nenhuma. Se você me convidar para ir a um show, eu fujo para o outro lado, porque eu não gosto de aglomeração, de tumulto... Então  eu não estou sentindo falta disso, mas sim daquele convívio que nós temos em sala de aula, com orientando, em reunião de comissão, com chateação, com parecer… eu era feliz e não sabia. Em um determinado momento ficou patente a minha insatisfação com a situação. O rendimento com meus trabalhos e com as conversas com orientandos caiu muito. Os meus trabalhos, em particular as análises que eu tento fazer, caíram a zero porque eu não tive cabeça para segurar tudo. Graças a Deus, eu consegui manter as aulas, olhando para a câmera como eu estou agora, sem saber se alguém estava prestando atenção do outro lado.
Isso de certa forma manteve meu grau de satisfação, porque eu consegui estabelecer uma comunicação bastante profícua com os alunos neste segundo semestre, que já sabíamos que seria 100% online, na graduação e na pós-graduação. Eu divido uma disciplina na pós-graduação que tem uma parte prática muito forte de análise e previsão do tempo, e nós ficamos bastante surpresos porque o oferecimento neste semestre foi muito feliz. O Prof. [Ricardo] Hallak e eu conseguimos manter um nível bastante legal de interesse dos alunos durante as aulas gravadas. Na disciplina de graduação, que é uma optativa do pessoal da Oceanografia, sempre vem bastante gente, e neste semestre foram 16 alunos. É um número maior do que o que acontece em algumas disciplinas do ciclo profissionalizante da Meteorologia, e eu fiquei bastante satisfeito que uma optativa oferecida na Oceanografia tenha atraído esse número de estudantes. E também foi muito legal porque conseguimos manter um nível [de interação] bem bacana com eles. Depois eu assisti os vídeos das aulas e vi que realmente não estava massacrante, monótono…
Então eu estou bem, acho que me levantei um pouco. Mas eu senti a paulada.
 
Você falou das disciplinas do segundo semestre, mas no primeiro semestre você tem a disciplina com os ingressantes do Bacharelado em Meteorologia....
Na [disciplina] do primeiro semestre, se não me engano, eu tive duas semanas e meia de aula [presencial] com eles, depois da Semana de Recepção. Eu sei disso porque fiz um bloquinho de lista de presença e só as duas ou três primeiras folhas [foram usadas]. Essa disciplina foi uma grande dificuldade, não só por ter sido logo de cara. Eu compartilhava na tela o mesmo “powerpoint” que eu projetava na sala de aula, e eu fazia as mesmas piadas sem graça. Mas ainda estava naquele momento em que nós achávamos que as aulas presenciais seriam retomadas. Havia aquele sentimento de “puxa vida, quanto tempo ainda vamos ficar nessa?”
Alguns estudantes estavam com problemas de conexão. No nosso caso em particular, tinha um estudante do Rio de Janeiro que escrevia emails para mim dizendo que não estava presente nas aulas, mas assim que tinha condições de conexão ele baixava os vídeos e assistia na casa dele, porque ele não tinha internet suficiente para fazer ao vivo.
E é uma turma numerosa, então foi um exercício de convívio. Neste ano, muitos de nossos alunos eram de fora de São Paulo. É uma característica dos três cursos do IAG, e em 2020 a nossa turma era bem heterogênea na distribuição dos estados. Tivemos alunos do Rio de Janeiro, de Goiás, de Minas Gerais, além de algumas pessoas do interior de São Paulo.
Durante o segundo semestre, uma coisa que me ajudou bastante é que o Google Meet (plataforma disponibilizada pela USP para as aulas online) começou a enviar um arquivo de “dados da reunião” junto com a gravação, com o nome de quem entrou, hora em que entrou e quando saiu. Mas antes disso era difícil fazer a avaliação da frequência. Eu olhava de vez em quando quem estava no chat. Teve uma aluna que depois reclamou, “puxa, professor, eu não perdi nenhuma aula e fiquei com 97% de frequência”, porque em uma das aulas eu achei que ela não estivesse.
Foi preciso me reinventar um pouco no que diz respeito à postura na aula. O material didático que eu usei é aquele que eu já tinha elaborado e atualizado com os monitores e alunos PAE nos anos anteriores. Mas para manter [as aulas] mais tête-à-tête, eu preparei seis ou sete listas de exercícios ao longo do semestre. Era uma lista a cada quinze dias. Os alunos faziam e mandavam o PDF para os monitores, que faziam a correção. Isso manteve os monitores da aula com atividades.
As provas eram parecidas: os alunos recebiam o arquivo PDF, mas tinham duas horas para entregar, em vez de duas semanas. [Durante as provas] os alunos ficavam logados no Google Meet. Eles tinham mais 10 minutos para digitalizar a prova, então eles tiravam foto com o celular… você precisa ver os arquivos que eu recebi, eles me mandavam literalmente qualquer coisa. (risos)
Então as disciplinas tiveram dificuldades contornáveis, e foram elas que me ajudaram a segurar a onda em termos de satisfação. Nós professores saímos arrasados quando damos uma porcaria de aula. Mas essa foi uma atividade que eu julguei ter cumprido bem, e de uma maneira minimamente prazerosa. 
 
Prof. Ricardo de Camargo durante o IAG Science Day, em 2019
O Prof. Ricardo de Camargo em convívio presencial no Auditório "Prof. Dr. Paulo Benevides", em 2019
 
Os professores da Meteorologia realizam há alguns anos ações para tentar combater a evasão, que é um problema que o curso enfrenta. Foi possível realizar alguma atuação nesse sentido, especialmente com os novos alunos?
No primeiro semestre eu costumo oferecer para os ingressantes uma disciplina optativa, que eu divido com o Prof. Edmilson [Dias de Freitas]. É uma disciplina para fortalecer a base de Física e de Cálculo. Temos alunos que chegam em um bacharelado como a Meteorologia sem considerar que vai ter uma enxurrada de [disciplinas de] Física e de Cálculo, muitos deles com enormes dificuldades vindas do Ensino Médio. Então nós recomendamos fortemente que os alunos ingressantes façam essa disciplina optativa, mas não são todos que o fazem porque já existem outras quatro disciplinas da Física e da Matemática, além de uma disciplina obrigatória da Meteorologia.
Quando nós oferecemos essa disciplina em 2018 e 2019, nos sentimos como um ponto de apoio para esses alunos. E ela também ajuda os alunos a se sentirem mais “prata da casa”, porque eles fazem muitas aulas [em outros institutos]. Mas em 2020, nós tivemos as três aulas [presenciais], e “bau-bau”. 
O Prof. Edmilson também tinha outra aula de graduação, e chegamos ao consenso de que já estávamos sobrecarregados demais para dar continuidade a essa disciplina optativa. Essa disciplina precisa de um tête-à-tête, para ajudar a perder esse medo cristalizado de Física e de Matemática, e neste ano nós ficamos um pouco de mãos atadas. De todo modo, eu mantive o contato com os alunos que tinham se matriculado, porque são os mesmos alunos da minha disciplina obrigatória. 
 
Você sabe se os alunos que ingressaram em 2020 e estudaram com você no primeiro semestre deram continuidade ao curso?
Eu não sei [quantos continuaram]. A desgraça foi grande no primeiro semestre. Na primeira prova da disciplina de Física, praticamente todos os nossos alunos tiraram zero. O Prof. [Carlos] Raupp, (presidente da Comissão de Graduação do IAG) conversou com o professor, e eu fiquei incentivando os alunos, mas sabemos que no final do semestre tivemos muitas reprovações. Normalmente vemos esse problema [de evasão] a partir do terceiro semestre, mas com uma disciplina com tanta reprovação em um primeiro semestre tão anômalo…
Eu costumo dizer aos alunos que eles devem dar muito valor ao número USP que eles recebem na matrícula, porque esse número representa muita coisa. Eles podem não saber disso ainda, mas espero que acreditem no professor da primeira matéria deles. Talvez você não precise fazer outro vestibular, talvez você possa fazer uma transferência. Acho que os alunos não saem da USP, a menos que a situação pessoal traga um impedimento maior. [O bacharelado em Meteorologia] perde alunos para a Física, para a Oceanografia, ou mesmo para a Geografia. Mas eles não desistem da Universidade, eles não saem da USP.
 
Entre o início do isolamento, em março, e o final de 2020, o Programa de Pós-Graduação em Meteorologia teve 12 defesas. Você orientou um desses trabalhos, e também participou de algumas bancas. Quais foram os efeitos da pandemia que você notou para a Pós-Graduação?
Houve prejuízos sim, mas não como desistência. Tivemos atrasos em relação ao planejamento original e vários pedidos de prorrogação, mas não dá para dizer que tenha sido desastroso. E no geral as agências de fomento concederam a extensão dos prazos das bolsas.
Nesses trabalhos que estavam em etapa final, a parte de análises, conclusões, discussões de resultado, abrangência para trabalhos de outras áreas que os orientadores procuram enxergar nos trabalhos dos alunos – essa parte pode ter ficado um pouco debilitada. O que também acontece é que no período após a defesa, durante a correção, nós normalmente aproveitamos para submeter artigos científicos. Isso acabou sendo prejudicado, porque essa marcação um a um ficou mais debilitada. Nós ainda não estávamos acostumados a fazer essas discussões [com os orientandos] remotamente. Alguns colegas mantiveram conversas [remotas] semanais com os orientandos. Eu mesmo não costumo ficar cobrando, porque os pós-graduandos são adultos e sabem qual o período de bolsas deles.
Então houve esse impacto nos prazos de conclusão e nas produções geradas. A CAPES disse que não vai levar o prazo na avaliação [do Programa]. Por outro lado, a falta de submissão de artigos, a falta de trabalhos em congresso, que foram muito prejudicados neste ano... eu acho que vamos sentir esses efeitos.
A Pró-Reitoria [de Pós-Graduação] deve lançar em breve outra circular sobre prorrogação de prazo para quem vence até abril de 2021. As disciplinas práticas, que nós achávamos que aconteceriam agora em janeiro, fevereiro e março, também não aconteceram.
Também no nosso caso, temos a situação das pesquisas que mantêm amostradores – como poluição do ar, que depende de amostragem contínua. Se não fosse essa amostragem contínua, nós não saberíamos que o ar ficou mais limpo nesse período, por exemplo. Então os estudantes que são comprometidos com as suas pesquisas continuaram trabalhando.  Eu sei que o grupo do Laboratório [de Processos Atmosféricos] da Profa. Maria de Fátima [Andrade] se organizou: um foi trocar filtros em um lugar, o outro foi buscar o impactador em outro lugar… não são instrumentos que ficam automaticamente fazendo tudo. É preciso trocar o filtro, recalibrar o equipamento. Para as atividades que têm esse lado experimental, foi necessário colocar máscara, faceshield, luva, e ir à luta.
 
Você acha que algumas das adaptações que foram adotadas em 2020 serão mantidas na Universidade?
Com certeza. Nós sempre fizemos tanta “realeza” com presença de membros externos em bancas de defesa, com a necessidade de assinaturas e com outras exigências que acabavam estourando no lado do candidato. Em termos de regras e formalidades, acredito que vai haver muita assimilação do que foi alterado neste período da pandemia, simplesmente porque facilitou a nossa vida, desburocratizou todo o processo e provou que toda aquela “realeza” não tinha tanta razão de ser. O sistema do [Google] Meet para a USP funcionou bem nas defesas, com os recursos que aprendemos. Claro que dependemos de regulação da Pró-Reitoria de Pós-Graduação para que as assinaturas fossem válidas, por exemplo. Muita coisa pode ser facilitada no regimento da Universidade.
Acho que vamos economizar muita burocracia. E eu acabei de participar de uma banca na Universidade de New South Wales (Austrália), que é fruto disso. Eles não vão me pagar para eu me deslocar por dois dias para participar de uma defesa de quatro horas. Nós mesmos no IAG, há quantos anos não estávamos fazendo aquela ginástica de videoconferência para participação de membro do exterior na banca?
Teve outra coisa que eu achei muito interessante, que seria uma mudança muito grande pra universidade, mas que devemos realmente considerar. Nesse curso de Pós-Graduação que eu divido com o Prof. Hallak, Laboratório de Meteorologia Sinótica, tivemos como ouvinte um aluno de Doutorado em Oceanografia Ambiental da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Ele é aluno de um egresso do nosso programa. Nós normalmente aprovamos pedidos de alunos ouvintes, eles entram no prédio [do IAG] e assistem às aulas. Mas nem se cogitava o lado não presencial. E neste semestre, isso simplesmente abriu uma porteira. 
Para nós da Meteorologia, essa porteira se transformou numa picada, que virou uma trilha, que virou uma avenida. Estão acontecendo semanalmente discussões de análise e previsão do tempo em que participam professores, alunos e pesquisadores de praticamente todas as faculdades do Brasil, por uma iniciativa da Profa. Rita [Ynoue], juntamente com uma egressa na Unesp de Bauru. Começou meio pequena – alguém conhecia um outro professor de outra universidade que também estava dando uma disciplina de sinótica, e decidiram juntar as duas turmas para fazer uma discussão conjunta. Aí um belo dia alguém convidou outra pessoa, e avisou mais pessoas, e mais pessoas, e mais pessoas. São frutos positivos que tiramos desse período esquisito, e que vão ficar. A Pró-Reitoria de Pós-Graduação está percebendo que algumas disciplinas podem ser oferecidas dessa maneira, atraindo um público maior e criando integração com outros Programas.
Eu conheço um rapaz egresso da Oceanografia, que foi monitor em uma das minhas disciplinas. Ele conseguiu ser aprovado para estudar fora, na Tasmânia. Ele estudou o ano de 2020 inteiro na Tasmânia, morando em São Paulo e acordando no horário da Tasmânia, você acredita? O que aconteceu foi que estava tudo certo, ele havia enviado a documentação, e pouco antes de viajar, veio isso tudo e ele não pôde se apresentar lá. [A Universidade] enviou para ele o link para as aulas, para os encontros com o orientador. Vamos precisar tomar cuidado com algumas maquiavelices. Vão tentar argumentar que esse aluno não precisa de bolsa. Mas ele tem contas, ele tem internet, ele precisa comer. Pode representar uma economia, mas não sei qual é o tamanho dessa economia.
São coisas que a pandemia nos ensinou. Será que vamos fazer isso também? Eu tenho medo de adotarem uma coisa híbrida em que eu esteja na sala de aula ao mesmo tempo em que faço isto aqui [a reunião virtual]. Porque uma coisa é eu estar aqui, no computador, na câmera, compartilhando a minha tela. Outra coisa é eu estar no quadro negro, lá atrás, e o aluno nem consegue me ver. Isso demandaria câmeras e um sistema de som em todas as aulas, para o aluno remoto estar efetivamente presente. 
Mas eu não quero deixar de ter o convívio acadêmico universitário. Não é uma questão de aglomeração.
 
 
 

 

Esta entrevista faz parte de uma série de conversas com membros da comunidade IAG para refletir sobre o ano de 2020 e os efeitos da pandemia em nossas atividades. Alguns trechos foram editados, para maior clareza. Leia todas as entrevistas no nosso especial no site do IAG.
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