Yara Marangoni: “A Pós-Graduação se adaptou muito bem e muito rapidamente”

selo decorativoYara Regina Marangoni é professora do Departamento de Geofísica e presidente da Comissão de Pós-Graduação (CPG) do IAG. Como presidente da CPG, vem acompanhando de perto o processo de defesas online iniciado no IAG em 30 de março de 2020. Nesta conversa, realizada ainda durante a primeira semana de 2021, destacamos a rápida adaptação da Pós-Graduação ao “novo normal”, o impacto da pandemia para a pesquisa e o convívio na tela e no home office.
 
 
Logo no início da pandemia, a Pós-Graduação foi muito afetada… 
Eu não achei que a Pós-Graduação tenha sido mais afetada. A grande diferença foi que a Pós-Graduação se adaptou muito bem e muito rapidamente, mais do que a Graduação. O Carlotti (Prof. Carlos Gilberto Carlotti Júnior, Pró-Reitor de Pós-Graduação da USP) se mobilizou muito rápido, talvez por ele ser da área de Medicina e ter mais conhecimento sobre os riscos. Em todos os programas de Pós-Graduação [do IAG] tivemos apenas duas disciplinas canceladas no primeiro semestre. No segundo semestre, todas as disciplinas foram para o online.
Já a Pesquisa foi o setor que mais sofreu, e como a Pós-Graduação está muito ligada à Pesquisa, nesse ponto eu concordo com você. A pesquisa dos alunos foi muito afetada. Aqueles que tinham que escrever e fazer disciplinas conseguiram ir bem, até porque escrever pede concentração e recolhimento. Mas os que estavam na fase de pesquisa, sem dúvida nenhuma, foram prejudicados.
 
A adaptação ficou muito clara com as defesas. Já tivemos defesas online em março de 2020. Como foi a atuação da Comissão de Pós-Graduação (CPG) do IAG para adaptar o formato?
Foi rápido, foi fácil, porque a Pós-Graduação já tinha há muitos anos a possibilidade de ter nas bancas ao menos um participante online. Já tínhamos esse conhecimento de como fazer.
Mesmo assim, de início, as pessoas tinham um pouco de receio. O presidente da banca [virtual] assina por todos, e isso não foi facilmente aceito, tanto no IAG como fora do IAG. Uma coisa era assinar por um ou dois membros [remotos], mas é diferente assinar por cinco pessoas, ou seis pessoas, no caso da Astronomia, em que o orientador do Doutorado não faz parte do júri. Isso realmente era um pouco constrangedor. Eu fiz os relatos [nas primeiras defesas], mas depois os próprios presidentes da banca puderam fazer. Eu acho que funcionou bastante bem. No IAG houve apenas um caso de que alguém começou a apresentar algo que não deveria [durante um seminário], e mesmo assim isso foi rapidamente cortado. Mas eu sei que em outros institutos houve invasões em defesas e em aulas por hackers, exibindo pornografia.
Houve uma avaliação inicial das defesas pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação (PRPG), e depois isso ficou a cargo dos programas, e havia o comentário de que muitas unidades não sabiam qual era o melhor procedimento. Então as unidades que estavam indo muito bem, como era o caso do IAG, prepararam uma espécie de manual, contando suas experiências e fazendo sugestões.
Sem dúvida nenhuma, as coisas funcionaram muito bem no IAG porque tivemos um Serviço de Multimeios funcionando muito bem, dando todo o suporte. Isso foi fantástico, foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Se nós não tivéssemos um Serviço de Multimeios tão forte, talvez tivessem acontecido problemas como em outras unidades.
Em algumas unidades, as pessoas não sabiam como transmitir para o YouTube, ou como restringir o acesso, ou a questão de direitos. O Richard [Lingner, do Serviço de Multimeios do IAG] sempre teve o cuidado de enviar emails para todos [os membros da banca] perguntando se poderia gravar, se poderia disponibilizar a gravação. Esse tipo de cuidado facilitou muito a vida da Pós-Graduação, porque era uma parte técnica que eu não domino e teria tido dificuldades. Então ter esse pessoal fez com que o nosso trabalho ficasse mais fluido.
Com isso, muitas pessoas do IAG que de início estavam se sentindo desconfortáveis  em fazer a defesa online depois começaram a fazer sem problemas. Tanto que foram poucos os pedidos de prorrogação de defesa. Tivemos pedidos de prorrogação de depósito, mas a partir de maio praticamente não existiram pedidos para prorrogação de defesa, porque as pessoas perceberam que ela fluía muito bem.
 
Na sua opinião, o formato online de defesas foi vantajoso?
Eu diria que teve vantagem, porque economizou muito dinheiro do PROEX (Programa de Excelência Acadêmica da CAPES, que provê recursos financeiros para programas de pós-graduação com notas 6 e 7). Também tivemos a possibilidade de participação nas bancas de muita gente de fora [do país], que não teria a oportunidade de vir para o Brasil, seja pelo custo da passagem ou pela disponibilidade de tempo. As defesas ficaram mais internacionais.
 
Você mencionou que o IAG já tinha, antes da pandemia, participação de avaliadores internacionais por videoconferência… 
Sim, sem dúvida nenhuma, sempre tivemos. Por isso que para nós não foi tão difícil. Talvez porque durante a pandemia os compromissos ficaram mais diluídos ao longo do dia, as pessoas conseguiram se adaptar bem, então era muito comum termos horários disponíveis [para participar de defesas].
Mas ao mesmo tempo foi chato. Especialmente para o candidato há a sensação de vazio, porque não tem aquela festa, a comemoração, o abraço, o parabéns. Você está sozinho na frente do computador. Você não tem nem o orientador ao seu lado para te dar um sorriso. Especialmente durante a apresentação, se você usava a tela cheia. Tenho a impressão de que para o candidato foi um pouco mais difícil, deu a sensação de “será que eu acabei mesmo?”
 
Essa comemoração nas defesas é muito marcante no IAG, porque os pós-graduandos frequentam o Instituto, dividem salas. Nós sempre víamos os grupos esperando no corredor, enquanto acontecia a deliberação da nota. Mas nas transmissões sempre tinha a participação dos colegas no chat, enviando mensagens de “Boa sorte” no começo, e de “Parabéns” no final. Então acho que existia um pouquinho de interação, embora diferente.
Mas voltando para as perguntas, você acredita que algumas dessas adaptações da Pós-Graduação serão mantidas?
Eu tenho a impressão de que sim. O Pró-Reitor [de Pós-Graduação] e a Câmera Curricular estão preparando um guia para a transformação de cursos em EaD (ensino a distância) ou semipresencial. Eu tenho a impressão de que alguns cursos vão se manter nesse formato, ou talvez serão semipresenciais. 
A Pró-Reitoria  [de Pós-Graduação] queria saber como estavam as defesas e as disciplinas. Ao final de cada disciplina, a PRPG enviava um questionário de avaliação para alunos e docentes, e eu faço parte de um Grupo de Trabalho que está avaliando as respostas. Estamos até escrevendo um artigo para publicar.
E uma das coisas que os alunos mencionaram muito foi a economia de tempo e de dinheiro, de transporte. Para quem trabalha [fora do campus], não é fácil ir para a Cidade Universitária fazer uma ou duas disciplinas e voltar para o trabalho. A Cidade Universitária não tem um acesso fácil, não tem um metrô na porta, para quem não tem transporte próprio. Você demora um tempão só para atravessar uma ponte, porque o trânsito é caótico.
Além disso, alguns Programas têm similares em mais de um campus – como Medicina, Odontologia, Veterinária, Física, Matemática, que são oferecidos em São Paulo, mas também em Ribeirão Preto, ou São Carlos, por exemplo. E esse pessoal comentava da possibilidade de fazer disciplinas de outro campus, coisa que não poderia acontecer [no formato presencial]. Não é viável você ir de São Paulo para Ribeirão Preto toda semana fazer uma aula. Então houve uma solicitação enorme dos alunos para manter algumas disciplinas teóricas dessa forma, que se considerasse disciplinas híbridas, com parte presencial e parte online. Eu acho que isso é uma coisa que veio para ficar – não para todas as disciplinas, mas para algumas sim.
E com certeza o uso cada vez maior de defesa online, porque os Programas perceberam que podem trazer a participação de muitas pessoas de fora, com economia, e usar o recurso financeiro para outras coisas. Nós mesmos às vezes usávamos dois terços do recurso [PROEX] só para bancas. Porque você precisa ter membros de fora da USP, e porque às vezes [o aluno] quer trazer alguém de fora. Não é só o pessoal do entorno de São Paulo, você traz pessoas de outras universidades. A passagem aérea é cara, e a compra precisa ser feita muito em cima da hora, então é tarifa cheia. O hotel é caro. 
Então muitos desses novos comportamentos vão continuar.
 
A Profa. Yara Marangoni apresentando o Simpósio de Pós-Graduação em 2019
A Profa. Yara Marangoni apresentando o Simpósio de Pós-Graduação em 2019; evento foi realizado na forma de live em 2020
 
Você disse que houve poucos pedidos de prorrogação de defesa, mas que houve solicitações para prorrogar o prazo de depósito. Qual foi o impacto da pandemia nesse sentido?
Em princípio, todo mundo que estava matriculado em março de 2020 poderia pedir prorrogação de prazo por seis meses, porque a Pró-Reitoria de Pós-Graduação imaginou que a situação estaria controlada. Isso não aconteceu, e em outubro, o prazo de prorrogação foi ampliado para um ano. Muita gente pediu essa prorrogação de seis meses, alguns pediram de um ano. Isso em todos os programas, tanto no mestrado como no doutorado.
Boa parte dos alunos não foram afetados, mas cerca de 10 a 25% dos alunos foram muito afetados em termos emocionais. Eles não conseguiram ir bem, alguns tiveram relatórios reprovados, alguns abandonaram o curso. O isolamento social foi um peso emocional muito grande.
 
Você pode avaliar como foi a questão da evasão na Pós-Graduação?
Não tenho os números de quantos abandonaram. Foi um pouco mais alto [do que nos outros anos], entre três e cinco alunos.
 
Eu também queria saber como estão as bolsas dos Programas do IAG. Nos últimos anos essas bolsas já estavam muito ameaçadas, e em um ano de crise isso fica ainda mais preocupante.
A situação está… não sei, ninguém sabe. A CAPES agora determinou que as bolsas são anuais, que os alunos precisam ser cadastrados novamente todos os anos. Então nós não sabemos quantas bolsas vamos ter em março, porque elas terminam em março. Eu fico pensando em um aluno de doutorado, que vai passar quatro anos recadastrando a sua bolsa, e se perguntando se vai ter ou não [a renovação]. É muito complicado.
O CNPq mudou completamente a dinâmica, em ano de pandemia. O Pró-Reitor [de Pós-Graduação] não conseguiu descobrir se a USP ganhou ou perdeu bolsas. Eu sei que algumas das bolsas que nós tínhamos terminaram e não foram renovadas, e neste novo pedido não foram implementadas. Nada está claro, e essa parece ser a estratégia do governo: não deixar claro a continuidade e o número de bolsas. Nunca foi tão bagunçado, nem mesmo quando [o governo Dilma] removeu bolsas da CAPES, e foi um horror. A CAPES várias vezes, em outros governos, passou por crises, mas conseguimos reverter as situações. Agora, não sabemos qual situação reverter, porque os números não batem. Eles informam um número para a Pró-Reitoria e outro número para o Programa. A PRPG fica pedindo para os Programas preencherem o formulário com o número de bolsas, mas ninguém sabe ou entende [qual é a situação].
Estamos muito preocupados com a avaliação da CAPES agora. A CAPES mudou muito a metodologia de avaliação no meio do ciclo avaliativo. Mudou tudo no último ano, no ano já complicado de 2020. Poderia ter feito uma trienal, mas fez essa bagunça. Em 2020 todo mundo sofreu para tentar fazer alguma coisa que vai sair em 2021, e o ano de 2021 não vai valer. Toda a Pós-Graduação, nesse ponto, está preocupada.
 
Os Programas de Geofísica e Meteorologia têm muitos trabalhos com experimentos, com amostragem. Isso foi um fator muito significativo para os alunos da Pós-Graduação?
Sim, com certeza. Os pedidos de prorrogação têm que ser feitos 3 meses antes, não adianta enviar agora [para a PRPG] uma solicitação de prorrogação de prazo de um aluno que vai se formar em 2022, porque não serão apreciados [neste momento]. A maior parte das prorrogações eram de quem estava para terminar, ou de quem estava no prazo de qualificação. Eu tenho a nítida sensação de que os pedidos de prorrogação vão continuar a ser feitos nos próximos dois anos, porque quem está na metade, dependendo de laboratórios, foi muito prejudicado. Em várias reuniões eu recomendei que alguns projetos de pesquisa fossem repensados. Esses pedidos de prorrogação devem continuar em 2021 e 2022, justamente por quem não conseguiu fazer laboratório.
 
Você também sentiu isso no seu trabalho como pesquisadora?
Foi tão desgastante, no início, como presidente da Comissão de Pós-Graduação, com tantas reuniões e adaptações, que no primeiro semestre meu trabalho de pesquisa simplesmente parou. Porque além da CPG, eu tinha que adaptar as minhas disciplinas de Graduação e de Pós-Graduação para o online. Eu sempre tive muito exercício em sala de aula, colocava os alunos para trabalharem com planilhas e gráficos, e tive que adaptar completamente essas atividades. Isso consumiu muito tempo — repensar todo o material, o que iria funcionar, e buscar mais exemplos. A parte de ensino me exigiu muito, e a pesquisa ficou [em segundo plano]. No segundo semestre eu consegui terminar um artigo com uma das minhas alunas de Iniciação Científica, e começar um artigo com uma aluna de pós-graduação.
 
Você mencionou a sua aluna de Iniciação Científica, que foi uma das poucas que apresentaram trabalho de graduação neste ano...
Em 2020 foram apenas quatro formandos da Geofísica, foi bastante preocupante. Foi muito estranho, porque nós tivemos 12 alunos de TG (Trabalho de Graduação) no primeiro semestre, e só dois apresentaram trabalho. No segundo semestre, foram apenas dois alunos [que apresentaram].
A minha aluna está muito focada em ir para a Pós-Graduação. Ela poderia ter se formado em 4 anos e meio, mas optou por desenvolver bem o trabalho final dela, submeter um artigo, e está preparando outro. Então ela teve um desenvolvimento muito grande. 
Eu sei de outros alunos que tiveram problemas com falta de dados. Os dados que eles tinham não eram suficientes, e eles dependiam de laboratório. Imagino que outros tiveram o mesmo problema.
 
Os alunos de Graduação também enfrentam muitas complicações. Se eles estavam em condições de fazer as disciplinas, de serem aprovados, de ter a pesquisa do trabalho final concluída, eles também tinham que avaliar se este era o melhor momento para terminarem a Graduação… 
No primeiro semestre, na graduação, eu tenho a impressão de que foi mais caótico do que no segundo. Tivemos vários alunos que trancaram disciplinas, como na minha disciplina de graduação, que é optativa.
Mas na minha disciplina do segundo semestre, a presença e a participação foram muito grandes. Em uma disciplina que eu dividi com o Eder [Molina], teve mais gente do que [na edição presencial]. Os alunos se esforçaram e trabalharam bastante. Claro que tivemos alguns prejuízos. Eles não puderam usar um software, que é super caro e que temos em nosso laboratório [no IAG]. Nós não tínhamos licença para mandar para todos. Então nós fizemos uma outra parte em papel. Para alguns, eu até imprimi e eles buscaram no IAG. 
 
Para terminar, eu queria saber um pouco sobre a sua adaptação em casa, para conciliar suas atividades.
Eu, como muitas brasileiras de classe média que trabalham fora, contrato uma empregada para facilitar  a minha vida. Nos primeiros meses da pandemia, ela não veio. Então nós tivemos que incluir na nossa rotina a limpeza de casa, os horários de preparo das refeições. Eu não tive finais de semana [livres], porque era quando eu fazia essas coisas.
Felizmente eu tenho um home office em casa, que nós fizemos há mais de vinte anos, porque  o Marcelo [Assumpção] sempre gostou de trabalhar em casa. Mas é comum eu estar dando uma aula no mesmo horário que o Marcelo tem uma reunião, uma palestra, então um home office para duas pessoas, no nosso caso, não iria funcionar por conta desses horários. Por sorte a minha mãe, que mora no apartamento em frente ao meu, também tem um home office, e eu fiquei no home office dela.
No início foi difícil, mas depois acabei me adaptando. Consegui agora voltar a fazer Pilates. Mas com a rotina de casa e a rotina de trabalho, todo o resto parou. Mesmo os meus hobbies. Tinha hora em que eu não conseguia nem mesmo ver televisão, não só porque o noticiário é muito pesado, mas porque é computador, tela demais. A rotina de trabalho que eu tenho agora é a mesma que eu tinha no IAG, mas no IAG eu saía [da minha sala] para dar aulas, tomar um café, assinar um papel. Tem esse movimento de ver pessoas, de orientar os alunos. O que era interação pessoal virou interação por computador, e eu peguei uma náusea de computador tal que eu não conseguia ver mais tela. Só ler mesmo, porque aí eu pegava um livro e lia na varanda. Foi difícil, foi pesado. Não foi fácil não.
 
 
 
 

 

Esta entrevista faz parte de uma série de conversas com membros da comunidade IAG para refletir sobre o ano de 2020 e os efeitos da pandemia em nossas atividades. Alguns trechos foram editados, para maior clareza. Leia todas as entrevistas no nosso especial no site do IAG.
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